OCUPAÇÕES IRREGULARES EM ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE: A RELAÇÃO ENTRE MEIO AMBIENTE E POBREZA SOB UMA PERSPECTIVA DIFERENCIADA (PARTE 3/4)


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4 CRISE CIVILIZATÓRIA
Traremos nos próximos tópicos, como uma espécie de adendo a este trabalho, algumas complexidades que estão na raiz da nossa atual crise civilizatória.

4.1. O avanço da pobreza no Brasil e no Mundo
Em 2021, o rendimento médio mensal dos brasileiros caiu ao menor patamar desde 2012, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse dado aparece na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua Rendimento, dando conta que o "rendimento médio mensal real domiciliar per capita em 2021 foi de R$ 1.353. Em 2012, primeiro ano da série histórica da pesquisa [...] era o equivalente a R$ 1.417" (Agência Brasil, 2022). A pesquisa mostra ainda que um percentual menor de brasileiros, comparado aos anos anteriores, possui alguma renda.

Ao mesmo tempo, a cada 33 horas, um bilionário surge no mundo, enquanto um milhão de pessoas ultrapassa a linha da extrema pobreza, de acordo com levantamento da ONG Oxfam, apresentado na abertura do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. O levantamento também aponta que "o mundo ganhou 573 bilionários na pandemia; [e] a fortuna dos 10 mais ricos é maior do que dos 40% mais pobres" (Correio Braziliense, 2022).

4.2. Capitalismo 4.0: uma visão estruturalista da crise
Ao longo dos últimos cinquenta anos, como mostra o Quadro 1, alguns fatores estiveram postos a nível econômico mundial, ajudando a estruturar o modo de produção capitalista como o conhecemos hoje. São eles: 
 
Quadro 1: Características do capitalismo atual.

Fonte: Adaptado de Ghiraldelli, 2021 (p. 143)
 

Em 1971, com o fim do Acordo de Breton Woods anunciado de forma unilateral pelo então presidente dos Estados Unidos Richard Nixon, cada país se viu obrigado a regular o câmbio, que passou a ser flutuante, segundo critérios locais. Tal fato foi decisivo para impulsionar a financeirização do capitalismo, viabilizando a especulação com o dólar e as negociações envolvendo derivativos e demais papeis. Com isso, o mercado financeiro aos poucos foi se consolidando como um campo de atuação prioritário para o capitalismo, pois passou a negociar não só a compra e venda de ações das grandes companhias, mas também a de títulos de dívidas. Dessa maneira, o capital passou a ter a chance de se reproduzir de forma descolada da mercadoria material, sem precisar arcar com a produção e as necessidades humanas, principalmente a da geração de trabalho e renda para as famílias. 

Por outro lado, o pós-fordismo (fim do regime taylorista e sua linha de produção) se deu de forma paralela ao processo de complexificação do mercado financeiro, na medida em que a tecnologia se desenvolveu. Tal fato modificou profundamente o ambiente fabril, que dispensou boa parte do trabalho humano, substituindo-o pela máquina. (GHIRALDELLI, 2021, p. 144-150). 

Ao se desvincular da fábrica e ocupar outros setores, como o de serviços, por exemplo, o trabalhador passou a atuar em rede, de modo que outro movimento aos poucos foi se consolidando: todo o seu tempo de vida virou tempo de trabalho, de modo que a mais-valia da fábrica perdeu protagonismo para a mais-valia social, ou seja, a que pode ser extraída do trabalhador que está sempre conectado. Essa condição, a do trabalho colaborativo em rede desenvolvido por todos nós, alimenta um saber difuso que é aproveitado pelos efetivamente ricos, e que Marx chamou de General Intellect (NEGRI, 2019). Assim, nos tornamos produtores e consumidores ao mesmo tempo, na medida em que ajudamos, mediante trabalho não pago, a desenvolver as tecnologias que nós mesmos consumimos.


Assistimos a uma proliferação de dispositivos tecnológicos que têm sua própria força disruptiva na capacidade de capturar nossas vidas, traduzindo nossos comportamentos, nossas escolhas, nossas interações humanas em dados. São máquinas de linguagem, próteses [...] que sugam informações de valor onde quer que estejamos [...] são "armas de distração em massa" que transformam todos os nossos gestos, todos os nossos pensamentos em valor econômico. Até a ociosidade é "colocada para funcionar", no sentido de que onde acreditamos estar inativos, nos distraindo e jogando na rede, na verdade produzimos dados que serão prontamente comercializados (MARAZZI, 2022).


Essa interação com a máquina (ou mundo dos algoritmos) tem gerado em nós uma nova subjetividade, uma nova forma de ver as coisas e de nos relacionarmos com os nossos princípios (ou a ausência deles), além de novos distúrbios psíquicos, ainda de difícil e parca compreensão. Se a nível conceitual não existe mais o trabalho fora das interfaces homem/máquina, não existe mais, portanto, subjetividade que não se enquadre nos parâmetros constituídos pelos milhares de softwares que regem nossas vidas. Assim, o capital nos destitui da nossa condição de sujeito, reduzindo-nos a peças
de uma maquinaria. Temos então o "sujeito maquínico" de Toni Negri; a "subjetividade maquínica" de Maurízio Lazzarato; e a denúncia de um relacionamento patológico entre processos mentais e redes virtuais, feita por Franco Berardi (GHIRALDELLI, 2021, p. 149-150).

Todas essas mudanças, que na verdade começaram a ser observadas ainda nos anos 80, geraram novas formas de pobreza, estas impulsionadas pela revolução neoliberal encabeçada por Margareth Thatcher e Ronald Reagan. Tal revolução, que a tudo visou, dos direitos trabalhistas aos sindicatos, do estado de bem-estar social à solidariedade entre gerações, criou uma nova casta de pobres. Mas pobres não por serem estes excluídos ou marginalizados, pelo contrário. Pobres pelos baixos salários, por novas formas de dívida social, pelo fato de segmentos inteiros da força de trabalho terem sido reduzidos a mão-de-obra terceirizada, com vínculos trabalhistas precários, como o trabalho intermitente, o temporário e o freelancer (MARAZZI, 2022).

(Continua...)


REFERÊNCIAS
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