Não fumem os seus celulares!

“Don’t smoke your cell phone”, disse a comissária de bordo num vôo com destino a Belo Horizonte.

Sinceramente, andar de avião é cada dia mais brega. Quando era criança, tomar café em Congonhas e assistir as aeronaves decolarem era o máximo. Viajar era um “evento”. Alguns homens vestiam terno, as mulheres estavam sempre arrumadas e as aeromoças eram esbeltas e elegantes. Quem trabalhava em rotas internacionais sabia falar inglês pra valer. Rodar o mundo servindo passageiros era algo desejado por milhares de pessoas.

Hoje, o bilhete custa o olho da cara e a comida é ruim, sem contar quando a refeição é, no máximo, um bolinho Pullman ou duas bolachas salgadas. Sinta-se espremido e passe fome. Já imaginou ter que decifrar aquele inglês macarrônico? Pelo menos a gente fala português!

Se a tripulação baixou o nível, obviamente boa parte dos passageiros também se adequa aos padrões atuais. Sempre tem aquele que bebe só pra aproveitar o vinho e a cerveja “de graça”. A maioria levanta e pega a bagagem de mão com a aeronave ainda em movimento, parece até uma boiada querendo sair pela porteira. Ok, não precisa fumar o celular. Mas dá pra esperar e checar os recados lá no saguão?

É uma falta de educação generalizada.

Pagando a língua

Nem cheguei aos 35, mas já me sinto como a minha avó. Quando era criança, lembro que ela escrevia algumas coisas erradas e eu, chata pra burro, vivia corrigindo. Antes de eu nascer, o Português já tinha mudado duas vezes e obviamente ela não conseguiu decorar todas as regras.

Eis que inventaram o Acordo Ortográfico 2009. Eu, jornalista, que me esforcei horrores para escrever certo, principalmente os hífens, pareço a dona Wanda. Completamente perdida entre o bem-vindo e o benfeito, o guardarroupa e o hiper-requintado, a autoestrada e o micro-ondas, o para e o pôr.

Minha sorte é que existe Internet e os links patrocinados do Google já adotaram a nova grafia. Fiz download de diversos guias. Mas nem imagino a cabeça da dona Wanda tendo que aprender tudo outra vez sem qualquer auxílio tecnológico (vixe, tem acento ou não?).

Posso aceitar que um idioma unificado traga benefícios de negócios e maior integração entre países, mas é bem complicado prometer que eu serei capaz de “renascer por completo” até 2012. Estou tentando reaprender minha própria língua. E nem pretendo criar caso se algum moleque quiser me corrigir. Se eu não entender tudo nos próximos dois anos e meio, talvez meus netos me façam escrever certo na marra.

Matemática feminina

Outro dia entrei na maior discussão com um amigo. Ele começou um namoro há duas semanas e já se punha a reclamar de ter que pagar algumas contas.

Entendo que o mundo anda supermoderno, que as mulheres reivindicaram direitos iguais, mas ser “moçinha” custa bastante dinheiro, então qual é o problema do rapaz de vez em quando fazer uma gentileza, principalmente no inicio do romance?

Acostumamos os homens muito mal. A gente faz questão de recebê-los sempre depilada, com a tintura do cabelo em dia, as unhas feitas. Ainda por cima fazemos o maior esforço pra não repetir a lingerie toda hora, sempre usamos a calça jeans mais cara do guardarroupa, além daquele sapato sensacional.

Então vamos às contas básicas:
(os preços são estimados e variam de acordo com o naipe do salão e a região onde se localiza)

- depilação (meia perna e virilha): R$ 35

- manicure (pé e mão): R$ 35

- tingir o cabelo: R$ 80

- escova: R$ 30

- tirar a sobrancelha: R$ 20

Isso equivale a um encontro. Num namoro, a criatura tem que multiplicar a maioria dos custos por pelo menos quatro finais de semana. Portanto, o gasto mínimo médio mensal da fulana é de, mais ou menos, R$ 200. Isso sem levar em conta: limpeza de pele, hidratante corporal, creme anticelulite, loção antirrugas, maquiagem, etc.

E vocês ainda regulam um jantarzinho???

Onde começa a liberdade do outro quando mentimos?

Bem, voltei a ficar filosófica este final de semana. Deixei de ir a um casamento por saber coisas a respeito do noivo que não me fazem sentir nenhum pouco orgulhosa de chamá-lo de amigo. Aliás, acho que ele não é mais meu amigo. E aí criei toda uma teoria sobre a mentira.

A mentira é o que mais aniquila a liberdade do outro. Quando mentimos, inventamos uma ilusão. E o outro, que deveria ter o direito de fazer escolhas legítimas para sua vida, simplesmente toma decisões baseadas num contexto que não existe. Decide por coisas que mais tarde vão se mostrar equivocadas. Não por culpa dele, mas por influência de alguém egoísta que o tomou para si e o manipulou como marionete. Por capricho, posse e auto-afirmação.

A verdade quase sempre dói. Mas pelo menos permite que sejamos quem queremos ser. E o mesmo vale para a pessoa com quem queremos construir algo. Se ela ficar com a gente, que seja pelo que realmente somos, com todos os erros, defeitos, mancadas, ímpetos, valores, índole, caráter… Não porque somos mimados demais para permitir que essa pessoa vá embora se não formos aquilo que ela escolher.

O mundo anda hipócrita demais para que, ainda por cima, sejamos falsos com as pessoas que nos cercam. Com as escolhas que fazemos. Enfim, que sejam felizes enquanto dure e que ela (a noiva) continue na ignorância. Desejo que ela não tenha o desprazer de se sentir idiota, humilhada, enganada, trouxa. É como a mentira faz a gente se sentir.  Não queremos que ninguém faça isso conosco. E não temos o direito de fazer isso a ninguém.

P.S - Não, eles não vão saber que estou falando deles aqui.

Vergonha alheia

Às vezes me mostram umas coisas que eu fico pensando: “Meu Deus, pra que inventar o ser humano?”

Sábado uma amiga me introduziu a uma série de vídeos no YouTube de um programa esdrúxulo de Caruaru, em Pernambuco, chamado “Sem Meias Palavras“. Um retrato transparente do Brasil que a gente faz questão de fingir que não existe.

E via Twitter descobri o site Explain this Image, onde pessoas abrem mão de qualquer dignidade em troca de alguns votos populares. Na boa, esse povo não tem família nem amigos, não é possível… Alguém tinha que mostrar pra elas o quanto elas são “ridiculamente ridículas”.

Trancoso: onde gente rica consegue ser brega

Ser rico é bom e não tenho a menor dúvida disso. O problema é ganhar dinheiro e perder a noção. Passei o Réveillon em Trancoso, na Bahia. O lugar é lindo, mas virou reduto de pessoas esnobes que sabem como ninguém confundir breguice com sofisticação.

Até onde eu entenda praia é propriedade de Deus, mas não em Trancoso, onde pra ficar em certos pedaços de areia “invadidos” por barracas chiques é preciso pagar R$150 por uma espreguiçadeira, R$500 por uma mesa com guarda-sol e quatro cadeiras, e R$750 por um bangalô. Esse custo é consumação mínima por pessoa. Claro que o povo bebe champagne na praia. Imagine a retenção de líquido dessa gente naquele calor de 40 graus!

Um garçom do Tostex me contou que já viu gastarem R$8 mil em um único dia. Bom pra ele que ganha 10% de comissão mais salário. Mas vamos combinar que é totalmente desnecessário gastar essa grana na Bahia. Pelo amor, pega um avião e vai pra St Barths, né! Armei meu guarda-sol de R$12 comprado no Extra e estendi a única canga que eu tenho desde 1999. Foi tudo de bom!

A principal festa de Ano Novo custava R$400 pra entrar. Tava lotada, claro. E não tinha nada muito diferente da festa que eu fui e custou R$25. Afinal, lá só toca música eletrônica ruim e nessa época do ano em Trancoso quem não é mineiro, é paulista. Ou seja, era pagar caro pra ver o mesmo tipo de gente que se encontra o ano todo em qualquer balada chata.

Os modelitos femininos eram os melhores. Tapete vermelho pra mulherada com suas carteiras de couro ou cetim e seus vestidos de seda, em camadas ou pontas, até os joelhos ou longos, tomara-que-caia ou frente-única, adornados com jóias e bijuterias reluzentes.

E havaianas nos pés, lógico. Afinal vestido de seda e bolsa de cetim ficam incrivelmente adequados pra a praia com um chinelinho básico. É a Alpargatas ditando os costumes high class e salvando a falta de estilo da galera.

Enfim, achei tudo muito mais legal depois do dia 04 de janeiro, quando os hippies ressurgiram e foi possível encontrar vários rastafáris e aquela gente com pinta de “guru astrológico”. Mais gringos desembarcaram usando sandálias e bermudas surradas. E os ricos que sobraram são os que têm casa na Bahia, falam bom dia na porta da padaria e levam o cachorro pra passear na praia. As festas ficaram bem mais divertidas e as lojas do Quadrado entraram em liquidação. Aí, sim, Trancoso virou um paraíso.

Recomeçando mais uma vez

Chegamos ao final de mais uma jornada. Passou rápido. Foi intensa, muito intensa. No começo, parecia que não ia dar. Deu. Termina bem, feliz, realizada, resolvida. Em 2008 a listinha de ano novo foi toda concluída. Não ficou nada pra trás. Os aprendizados vieram na marra. Alguns ainda preciso praticar pra valer. Mas muita coisa já mudou pra melhor. Hoje estou exatamente onde e como queria estar. Nada compensa mais do que isso.

E 2009 será o momento de me apropriar de todas essas conquistas. Viver o hoje, ser mais eu, sorrir mais e dar valor a absolutamente todos os segundos da minha vida. Continuar aprendendo, realizando, resolvendo, superando. Recomeçando, mudando. Mudar, sempre! Seguir em frente. Crescer! Amar: a vida, a alma, as pessoas, o mundo!

Aos meus poucos e queridos amigos, obrigada por estarem do meu lado há tanto tempo, compartilhando momentos tão únicos e divertidos. Obrigada por abrirem meus olhos para o novo! E para tudo que o universo tem de melhor!

Aos meus pais, não canso de dizer que vocês são as pessoas mais importantes da minha vida e que sem vocês eu não seria nada. Que vocês continuem ao meu lado por muitos e muitos anos. Eu amo vocês mais que tudo!

É isso aí. Feliz 2009 pra todos nós!!!! Com muita saúde, dinheiro, paz, alegria e, principalmente, sabedoria! Só a sabedoria nos torna verdadeiramente livres!

Até a volta.

Grávidas doem o seu xixi!

Fui outro dia a uma reunião num cliente e me deparei com um cartaz do Programa HCG, uma campanha que incentiva grávidas a doar urina até a 18a semana de gestação. O Hormônio Coriônico Gonadotrófico é liberado pela placenta e ajuda a manter a gravidez no início do desenvolvimento do embrião. Ele tem sido amplamente usado como matéria-prima na produção de medicamentos para tratamentos de infertilidade.

O programa existe desde 1986 em São Paulo e Minas Gerais — não sei há alguma indústria farmacêutica por trás da iniciativa. E, convenhamos, doar xixi é razoavelmente fácil e pode ajudar a realizar o sonho de muitos casais. Sou totalmente pró-adoção, mas dar à luz um filho é tão mágico que todas as mulheres do mundo merecem passar por essa experiência.

Apenas fico surpresa de nunca ter ouvido falar dessa campanha antes. Espero que mais empresas contribuam para a divulgação do programa e que médicos passem a orientar suas pacientes. O mundo pode até estar uma porcaria, mas só vamos mudá-lo se colocarmos pessoas mais legais por aqui, não? E já que a gente fala tanto de ajudar o próximo, tá aí uma coisa fácil e sem custo.

Lipo agora tem utilidade

By Richard Harris

By Richard Harris

Tenho aflição de lipoaspiração. Mas de acordo com o blog Eco Geek, isso pode ajudar a salvar o planeta: inventaram o Earthrace, um barco movido, entre outras coisas, a gordura humana. O neozelandês Pete Bethune e sua família venderam tudo o que tinham para construir o trimarã. Ele próprio teve a gordura de seu corpo sugada, o que rendeu 100 ml de biocombustível para ser misturado a outros biodiesels que fizeram a engenhoca funcionar.

O Earthrace - com potência de 540 cavalos e que custou US$ 2,5 milhões para ser construído –  bateu o recorde danto a volta ao mundo em 60 dias, 23 horas e 29 minutos, e provando que é possível ter um barco rápido, totalmente feito com madeiras sustentáveis e materiais reciclados, com uma tripulação consumindo somente comida orgânica e numa viagem 100% carbono neutra.

Pelo menos a obsessão pela beleza pode agora se transformar em algo benéfico ao invés de apenas encher o bolso dos cirurgiões plásticos. É melhor que a gordura da mulherada vire combustível alternativo do que sabão, nas mãos de um louco como Tyler Durden.

One Day as a Lion: outro projeto solo frustrante

O povo reclama tanto na minha orelha que vou voltar a fazer posts sobre música, retomando a série Riot Girrrrls, com bandas femininas alternativas de diversas partes do mundo, resenhas de shows (embora eu esteja indo a poucos concertos ultimamente), velharias e coisas que eu descubro na Internet. Mas não prometo que vou conseguir escrever toda hora, ok?

Enfim, estava escutando o EP do One Day as a Lion, projeto novo do Zack de la Rocha com Jon Theodore, ex-baterista do Mars Volta. O nome vem de uma fotografia tirada em 1970 por George Rodriguez de um muro em Boyle Heights, Los Angeles, com a frase “It’s better to live one day as a lion, than a thousand years as a lamb” (melhor viver um dia como um leão do que mil anos como um cordeiro).

Theodore é um excelente baterista, Zack continua incrivelmente engajado, mas sou meio contra projetos solo. Eles sempre carregam bases das bandas de origem e, na maioria das vezes, acabam virando versões pioradas do mesmo.

E One Day é uma versão piorada de Rage Against the Machine. No lugar da guitarra e do baixo, Zack tira distorções do teclado, o que pode parecer brilhante na primeira faixa, mas se torna repetitivo ao longo do álbum. Sua voz e a pegada meio rap também fazem com que a comparação com o Rage seja inevitável, assim como as letras, bem menos surpreendentes.

Numa entrevista ao Los Angeles Times ele mesmo reconhece que One Day precisa de melhorias. “Não, esta não é uma explosão de energia apenas. Vamos gravar discos, escrever músicas. Estamos no processo de formar a banda. Precisamos de um tecladista. Não sou bom o bastante para fazer tudo sozinho. Portanto, vamos nos reformular em breve”.

Da mesma forma como sempre achei que o Audioslave subestimava o talento de Tom Morello, Tim Commerford e Brad Wilk, One Day não reflete a genialidade de Zack e não empolga quem espera por inovações. Ele foi bem mais criativo quando criou March of Death, com DJ Shadow, e encarnou raízes do bom e velho hip hop, juntando-se ainda a Chuck D e The Roots para gravar “Mumia 911“. Se contarmos ainda a antiga parceria com KRS One, tudo isso parece ter saído muito mais do âmago. “Quando deixei o Rage estava de coração partido e fiquei obcecado por reinventar a minha roda por completo”, ele disse ao LA Times. Então talvez ele esteja outra vez precisando de algumas doses de depressão.

Depois de ter visto o Rage ao vivo em Berlim, em junho deste ano, fica difícil não desejar que eles gravem um novo álbum. O entrosamento no palco, o som perfeito, os solos improvisados e hipnotizadores, a força das melodias, o ritmo das letras, os pulos e tombos do Zack. Não dá pra aceitar que isso tudo continue secundário na vida deles. “Muita coisa mudou. Quando você fica mais velho, olha para o passado e tem outra perspectiva sobre os problemas. Nossa relação está melhor do que nunca (…) Vamos continuar fazendo shows (…) Mas quanto a gravar música no futuro, não sei o que todos pensam disso”, contou ele na entrevista. Que pena.

Deixo aqui uma mostra de One Day as a Lion pra vocês: 05-one-day-as-a-lion