NOTAS SINGELAS SOBRE A HISTÓRIA RECENTE DO CAPITALISMO MUNDIAL E BRASILEIRO_
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1929, 1930: "Grande Depressão Econômica". Crise de superprodução. Começa nos EUA e se torna mundial. Não há consumo suficiente, pois as pessoas ganham pouco. A tentativa de saída dessa situação é dificultada. Tem-se um monte de coisas "perdidas" porque não há como vendê-las. O desemprego advindo disso agrava o cenário.
Para vencer essa primeira crise mundial do capitalismo surge nos EUA dois movimentos: um de vertente mais à esquerda e um outro, o chamado New Deal. Este segundo, que acaba vingando, propõe um acordo entre governo, empresários e trabalhadores, para que o pouco de imposto disponível nos cofres públicos seja carreado para as frentes de trabalho. A ideia é que o empresariado passe a aceitar os sindicatos, que por sua vez passariam a aceitar salários mais condizentes com aquela realidade. Paralelamente a isso, houve uma ampliação do investimento da Mais-Valia Social no trabalhador, mediante ampliação de serviços públicos, como escolas, hospitais, previdência social etc.
Ou seja, cria-se, nos EUA, um grande aparato de seguridade social, incluindo leis trabalhistas, direito de greve etc. O país começa a sair da crise.
Vem a Segunda Guerra Mundial. EUA entram no conflito, mas já não tanto em crise. Saem da guerra vitoriosos, com a indústria produzindo e a população economizando por conta do esforço de guerra. Sobra produção da indústria bélica, que se reorganiza. Os EUA entram com o Plano Marshall.
Plano Marshall: EUA despejam dinheiro na Europa, Ásia e América Latina, para a "reconstrução do mundo". Explosão de empregos. Sindicatos funcionando. É o nascimento do Estado de Bem-Estar Social (Walfare State). Direitos trabalhistas vingando, capital ganhando e o American Way Of Life (o "modo de ser e viver" da classe média americana no capitalismo) torna-se o grande modo de vida.
O American Way of Life foi um "movimento" ou uma fase do capitalismo, que veio para se contrapor a uma outra via: o socialismo. Esse período é chamado de "30 anos de ouro do capitalismo".
Nesse período o dólar se torna a moeda do mundo. Ela substitui o ouro, porque seu valor está agregado a essa commoditie. Existe uma reserva de ouro nos EUA (Fort Knox) que corresponde ao valor da moeda a nível mundial. O dinheiro tem lastro, que dá o padrão da moeda. Esse lastro é a mercadoria ouro.
Mesmo com a boa fase do capitalismo, a chamada "luta de classes" não para! E os trabalhadores do ocidente vão pedindo mais e mais. Então, o Estado de Bem-Estar Social, tanto na Europa, quanto nos EUA, começa a se ampliar. Ao ponto dos estados nacionais passarem a gastar mais do que arrecadam, de modo que começam a se endividar para prover as reivindicações dos trabalhadores. E assim o fazem para mostrar que o capitalismo é melhor que o socialismo. A dívida americana e de outros países cresce demais. E o Estado de Bem-Estar Social entra em crise.
Não só o endividamento dos estados nacionais gera essa crise. Mas também as guerras no oriente médio, a corrida armamentista, a crise do petróleo etc.
Richard Nixon, com a atual crise do capitalismo, deixa a porta aberta para o neoliberalismo, nos moldes do Consenso de Washington, instituindo uma política de nova relação com os seus credores, que são os bancos estrangeiros. Sem contar que o dinheiro que os EUA investem em outros países elevam, acima dos EUA, a capacidade de produção desses países. EUA mais importam do que vendem. Isso na década de 70. Entre esses países, podemos citar o Japão, a Alemanha e alguns da Europa. Ou seja, a balança comercial não estava favorável para os Estados Unidos naquela época.
Richard Nixon toma uma decisão: a solução para o problema do endividamento americano se dá pelo fim do "padrão ouro". Ou seja, o dólar perde lastro, seu valor passa a se basear em outros critérios, geralmente especulativos. Assim, se as dívidas americanas existiam em dólar, o governo Nixon passa a atribuir ao dólar o valor que lhe convém. EUA se reequilibra.
Com isso, temos o início de uma coisa chamada "câmbio flutuante": o valor do dólar é determinado pelo BC americano. Esse valor muda a cada dia, por critérios não muito claros e o mundo precisa então passar a se adaptar a esse novo câmbio (flutuante).
O imperialismo americano assume um novo modo de operação: primeiro "vai o dólar" e depois as armas. O dólar passa a ser o padrão mundial das moedas e todos nós passamos a participar disso direta ou indiretamente. Uma economia baseada num dólar sem lastro, que oscila ao sabor do BC americano.
O câmbio flutuante gera vários problemas, tanto para quem vende, quanto para quem compra. Por conta disso surge a chamada "economia de papéis podres" ou negócio de títulos de dívidas, pois com negociações feitas em dólar, nunca se sabe quanto estará valendo uma dívida em determinada data. Cresce o mundo financeiro e o capitalismo especulativo (ou financeiro) passa a ser mais rentável que o capitalismo produtivo. Também cresce o mercado de seguro, pois os credores, no receio de não receberem, passam a fechar com seguradoras.
Os próprios estados nacionais passam também a fazer empréstimos e a comprar esses títulos de dívidas. E eles mesmos passam a fazer dívidas e a vender títulos de dívidas. E fazem isso também para enxugar o caixa dos bancos, para que os bancos não "soltem dinheiro na praça" e criem inflação. Essa é a base da maior parte da dívida pública de muitos países, inclusive a brasileira (como já falamos em uma série de artigos aqui do blog). Esse mesmo mecanismo gera uma outra financeirização, que é a da compra/venda de títulos do Estado (o Estado tem uma dívida com "B", "B" vende essa dívida para "C"). Ou seja, não há dinheiro, há papéis. Um capital fictício.
Muitos acreditam que para que o dinheiro tenha valor, é preciso que ele seja gerado por mercadoria, que por sua vez é gerada pelo trabalho. É o trabalho que confere valor às coisas. Quando se tem uma situação em que dinheiro gera dinheiro, não há valor embutido. Produção versus Financeirização. Chega-se a um ponto em que o próprio produtor perde interesse pela produção e passa a ter mais pela financeirização, pois no mercado financeiro é possível ganhar mais. O capitalismo produtivo perde espaço para o capitalismo financeiro.
Os neoliberais dão suporte técnico a essa nova forma de capitalismo, por acreditar ser esse um "mercado livre" que atua sem restrição. E as constituições dos países vão se adaptando a essa nova forma de capitalismo. No Brasil, o governo Fernando Henrique tirou da CF as cláusulas que regulavam o mercado financeiro.
Especulação financeira: nosso dinheiro gira sem valor, pois não há produção. Então cresce o emprego nos bancos e seguradoras. Os trabalhadores se deslocam das fábricas. É um capitalismo do desemprego, da diminuição do consumo, da diminuição da produção, da desindustrialização, da evasão de divisas para paraísos fiscais. Neste cenário, as crises cíclicas são inevitáveis.
O Brasil se enreda nesse processo. Governos Sarney, Collor, Fernando Henrique, Lula, Dilma e Bolsonaro não tentam mudar essa realidade. Uns porque não querem. Outros por não acreditar ser possível. Trata-se de uma questão mundial. A "cartilha neoliberal" é seguida por todos eles.
No caso do governo Lula, talvez por este pertencer ao campo da esquerda, a diferença é que, impulsionado pelo valor alto das commodities, ele emprega tal superavit na valorização do salário mínimo, sem precisar mexer com o capitalismo financeiro ("milagrinho brasileiro", Laura Carvalho), aliado ao Bolsa Família, aos programas sociais e também ao PAC. Tudo isso melhorou, em muito, a vida dos mais pobres.
Veio o governo Dilma, que pegou a crise financeira de 2008 e a baixa na venda das commodities para a China. Também pelo fato dela achar que os empresários não iriam apoiá-la, como apoiaram o Lula, começa a enxugar o Estado (medidas de austeridade) e a desonerar os imposto das indústrias, o que diminui a arrecadação e os programas sociais sofrem um baque. Seu "governo social", enfraquecido, fortalece o setor financeiro. Tudo isso abre espaço para o impeachment.