BOTECO LITERÁRIO #2
O texto de setembro de 2026 do Boteco Literário foi o Capítulo IX (“Verdades Eternas”) da Parte I do livro Anti-Dühring, do filósofo socialista Friedrich Engels.
Para lê-lo clique aqui.
1. VISÃO GERAL
No seu livro, Engels faz uma
crítica contundente e satírica às ideias de Eugen Dühring, que afirmava
ter descoberto um sistema de “verdades definitivas e inapeláveis” sobre a
moral, o direito e a ciência. Ou seja, Anti-Dühring é um tratado sobre a
desconstrução das “verdades eternas”. Abaixo estão os pontos centrais
discutidos no texto.
2. A NATUREZA DO PENSAMENTO HUMANO
Segundo Engels, a natureza do pensamento humano é definida por uma contradição fundamental entre o seu potencial ilimitado e as suas limitações práticas imediatas.
Segundo Engels, a natureza do pensamento humano é definida por uma contradição fundamental entre o seu potencial ilimitado e as suas limitações práticas imediatas.
Por um lado, quando consideramos a humanidade em toda a sua jornada histórica, englobando gerações passadas, presentes e futuras, a capacidade de conhecer e compreender o mundo se apresenta como soberana, absoluta e infinita. Não existem barreiras intransponíveis para a mente humana a longo prazo, e o universo é plenamente cognoscível.
Por outro lado, esse mesmo pensamento se manifesta na realidade através de indivíduos de carne e osso, cujas capacidades são estritamente limitadas por suas condições biológicas e, principalmente, pelo momento histórico em que vivem. Cada pensador está preso às ferramentas técnicas, aos preconceitos e ao acúmulo de conhecimento de sua própria época, o que torna cada descoberta científica ou filosófica essencialmente relativa e incompleta.
A contradição se resolve justamente no desenrolar da história, onde a verdade absoluta deixa de ser um ponto final ou um dogma fixo alcançado por um único homem.
3. A RELATIVIDADE DAS CIÊNCIAS
No que tange às Ciências Exatas (Matemática, Física, Química), Engels afirma que mesmo a matemática perdeu sua “pureza absoluta” ao introduzir grandezas variáveis e o cálculo infinitesimal. A física e a química vivem em constante mutação de hipóteses. Nas Ciências Biológicas, a complexidade das interações e novas descobertas forçam revisões constantes do conhecimento. Já nas Ciências Históricas e Sociais, Engels alerta que nesse campo o conhecimento é ainda mais relativo, pois as condições mudam constantemente. Buscar verdades eternas aqui resulta apenas em platitudes (ex: “os homens não podem viver sem trabalhar”).
Ao analisar a relatividade das ciências, Engels demonstra que a busca por verdades eternas e imutáveis se torna cada vez mais difícil à medida que o objeto de estudo se torna mais complexo. Ele organiza o conhecimento humano em três grandes esferas para provar que o saber é um processo em constante evolução. E ele conclui que tentar fixar verdades eternas e dogmáticas nas ciências sociais é uma ilusão pretensiosa, pois qualquer tentativa de criar uma lei moral ou social imutável resulta apenas em frases vazias e lugares-comuns, que perdem o sentido assim que as bases econômicas da sociedade se transformam.
4. A MORAL DE CLASSE
Engels afirma que todas as teorias morais são, em última análise, produtos das condições econômicas e da situação de classe de uma sociedade. Não existe uma moral universal acima da história. Atualmente, coexistem a moral cristã-feudal, a burguesa e a proletária. Uma moral verdadeiramente humana só existirá quando os antagonismos de classe forem não apenas abolidos, mas completamente esquecidos na prática da vida.
Engels afirma que todas as teorias morais são, em última análise, produtos das condições econômicas e da situação de classe de uma sociedade. Não existe uma moral universal acima da história. Atualmente, coexistem a moral cristã-feudal, a burguesa e a proletária. Uma moral verdadeiramente humana só existirá quando os antagonismos de classe forem não apenas abolidos, mas completamente esquecidos na prática da vida.
5. O ATEÍSMO DOGMÁTICO DE DÜHRING
Embora o tom de Dühring seja o de um pregador moralista, ele era, na verdade, um ateu convicto e um inimigo ferrenho do cristianismo. Mesmo rejeitando a Igreja e a religião organizada, ele tentou criar uma filosofia que substituísse a religião, mas acabou cometendo os mesmos “vícios” do pensamento religioso. O cristianismo se baseia em verdades absolutas e imutáveis reveladas por Deus. Dühring dizia que não acreditava em Deus, mas afirmava que ele mesmo havia descoberto verdades morais definitivas, absolutas e inapeláveis. Ou seja, ele tirou Deus do altar e colocou a própria razão dele no lugar. A estrutura de pensamento de Dühring continua sendo profundamente maniqueísta (dividida rigidamente entre o bem e o mal). Em vez de entender o mal como um fruto de problemas sociais ou históricos, ele tenta categorizar o mal como algo quase metafísico e natural. Para Engels e Marx, não adianta nada o sujeito se declarar ateu se ele continua pensando igual a um teólogo.
6. ESSENCIALISMO X MATERIALISMO
A leitura que se faz de um Dühring cristão se justifica porque ele apela para um certo “essencialismo” quando tenta provar que o mal existe quase como uma “entidade natural”. Enquanto Engels, por sua vez, tem uma visão mais dialética, mais calcada no materialismo, na questão do contexto e da circunstância. Na verdade, o que aqui chamamos de “essencialismo” é o que a filosofia chama de idealismo metafísico, que é justamente a base do pensamento religioso.
Para Dühring, o “Bem” e o “Mal” são categorias fixas, propriedades quase biológicas ou cósmicas. Se o mal se manifesta em homens, gatos ou alienígenas, é porque a “essência” do mal existe na natureza e contamina esses seres. Essa é exatamente a mesma estrutura do Pecado Original ou da existência do Demônio na teologia cristã: o mal é uma força externa e corrompedora que preexiste e se manifesta no mundo.
Engels rejeita totalmente essa ideia. Para o materialismo, o “mal” não é uma substância, uma essência. O que chamamos de mal são comportamentos e relações sociais gerados por contextos muito específicos de escassez, dominação e conflito de classes. A moral não cai do céu e não está no DNA de ninguém. Ela nasce de como a sociedade produz sua vida material. O roubo só é um “mal” moral porque existe a propriedade privada. O egoísmo só é uma força moral destrutiva porque vivemos em uma sociedade baseada na competição econômica. Mudando as circunstâncias materiais, a moral muda.
Embora o tom de Dühring seja o de um pregador moralista, ele era, na verdade, um ateu convicto e um inimigo ferrenho do cristianismo. Mesmo rejeitando a Igreja e a religião organizada, ele tentou criar uma filosofia que substituísse a religião, mas acabou cometendo os mesmos “vícios” do pensamento religioso. O cristianismo se baseia em verdades absolutas e imutáveis reveladas por Deus. Dühring dizia que não acreditava em Deus, mas afirmava que ele mesmo havia descoberto verdades morais definitivas, absolutas e inapeláveis. Ou seja, ele tirou Deus do altar e colocou a própria razão dele no lugar. A estrutura de pensamento de Dühring continua sendo profundamente maniqueísta (dividida rigidamente entre o bem e o mal). Em vez de entender o mal como um fruto de problemas sociais ou históricos, ele tenta categorizar o mal como algo quase metafísico e natural. Para Engels e Marx, não adianta nada o sujeito se declarar ateu se ele continua pensando igual a um teólogo.
6. ESSENCIALISMO X MATERIALISMO
A leitura que se faz de um Dühring cristão se justifica porque ele apela para um certo “essencialismo” quando tenta provar que o mal existe quase como uma “entidade natural”. Enquanto Engels, por sua vez, tem uma visão mais dialética, mais calcada no materialismo, na questão do contexto e da circunstância. Na verdade, o que aqui chamamos de “essencialismo” é o que a filosofia chama de idealismo metafísico, que é justamente a base do pensamento religioso.
Para Dühring, o “Bem” e o “Mal” são categorias fixas, propriedades quase biológicas ou cósmicas. Se o mal se manifesta em homens, gatos ou alienígenas, é porque a “essência” do mal existe na natureza e contamina esses seres. Essa é exatamente a mesma estrutura do Pecado Original ou da existência do Demônio na teologia cristã: o mal é uma força externa e corrompedora que preexiste e se manifesta no mundo.
Engels rejeita totalmente essa ideia. Para o materialismo, o “mal” não é uma substância, uma essência. O que chamamos de mal são comportamentos e relações sociais gerados por contextos muito específicos de escassez, dominação e conflito de classes. A moral não cai do céu e não está no DNA de ninguém. Ela nasce de como a sociedade produz sua vida material. O roubo só é um “mal” moral porque existe a propriedade privada. O egoísmo só é uma força moral destrutiva porque vivemos em uma sociedade baseada na competição econômica. Mudando as circunstâncias materiais, a moral muda.
7. O MAL É UM GATO?
No livro dele, Dühring tentava criar uma explicação definitiva e “científica” para a origem do Mal no mundo. Em vez de fazer uma análise séria (histórica, social ou psicológica), ele escreveu que o comportamento de certas pessoas ruins e falsas era idêntico à “falsidade” natural dos gatos. Para Dühring, a própria existência dos felinos era uma prova material e biológica da existência do mal.
Engels, ao ler que um filósofo que se dizia “revolucionário e genial” justificava o mal na humanidade comparando-o com gatos, não perdoa, e conclui textualmente: “Concluímos, portanto, que o mal, segundo o Sr. Dühring, é... um gato.”
Engels estende a piada dizendo que o diabo não tem mais chifres e cascos, agora ele tem unhas e olhos verdes. O escritor Goethe errou feio no seu famoso livro Fausto, porque fez o demônio Mefistófeles aparecer na forma de um cão preto, quando deveria ter usado um gato. A moral “universal” de Dühring serve tanto para humanos em outros planetas quanto para os gatos da Terra.
No livro dele, Dühring tentava criar uma explicação definitiva e “científica” para a origem do Mal no mundo. Em vez de fazer uma análise séria (histórica, social ou psicológica), ele escreveu que o comportamento de certas pessoas ruins e falsas era idêntico à “falsidade” natural dos gatos. Para Dühring, a própria existência dos felinos era uma prova material e biológica da existência do mal.
Engels, ao ler que um filósofo que se dizia “revolucionário e genial” justificava o mal na humanidade comparando-o com gatos, não perdoa, e conclui textualmente: “Concluímos, portanto, que o mal, segundo o Sr. Dühring, é... um gato.”
Engels estende a piada dizendo que o diabo não tem mais chifres e cascos, agora ele tem unhas e olhos verdes. O escritor Goethe errou feio no seu famoso livro Fausto, porque fez o demônio Mefistófeles aparecer na forma de um cão preto, quando deveria ter usado um gato. A moral “universal” de Dühring serve tanto para humanos em outros planetas quanto para os gatos da Terra.
Para encerrar, as considerações de Engels a respeito da moral podem funcionar como um gancho para discutirmos o quanto o moralismo consolidou-se, em nosso tempo, como um problema eminentemente político. Mas isso é assunto para outro Boteco.
Boteco Literário
é uma roda de conversa que acontece (quase) sempre no último sábado do
mês, na livraria Sebo na Estrada. O Sebo fica na Rodovia Amaral Peixoto,
1721, Loja 2, Barra de São João, Casimiro de Abreu – RJ. [ Instagram: sebo._ ] [ TikTok: @sebo.na.estrada ]