Resenhas
RESENHA #11: "O DESPERTAR DO UNIVERSO CONSCIENTE: UM MANIFESTO PARA O FUTURO DA HUMANIDADE"
Marcelo Gleiser | Record | 252 páginas
Marcelo Gleiser não seria a minha primeira opção ao entrar em uma livraria em busca de algo interessante para folhear. Também não chamaria a minha atenção em uma estante de livros na casa de alguém. Então, para ler algo dele, eu precisaria ser convencido. E foi precisamente isso que aconteceu com O despertar do universo consciente: Um manifesto para o futuro da humanidade. Nesse livro, Gleiser tenta nos mostrar, com dados científicos, que existe uma possibilidade muito grande de estarmos sozinhos no universo. Pois a existência da vida, bem como a de um planeta capaz de oferecer suporte a ela, são fatores nem um pouco banais. Para quem já desistiu de tentar trabalhar pela perenidade da espécie humana neste mundo, e está desejando ou projetando a nossa saída dele, o manifesto de Marcelo Gleiser é um tapa elegante e cheio de poesia.
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RESENHA #10: "IMPERATRIZ NO FIM DO MUNDO: MEMÓRIAS DÚBIAS DE AMÉLIA DE LEUCHTEMBERG"
Ivanir Calado | Selo Independente | 228 páginas
Conheci o escritor Ivanir Calado na minha adolescência. Me foi apresentado por um amigo. Li com voracidade A mãe do sonho e me pus a imaginar se o protagonista Jorge Damatta seria um reflexo do próprio "Ivo". Afinal, um personagem tão vivo só poderia ter sido inspirado em alguém. Tempos depois li outro livro dele, o interessante Imperatriz no fim do mundo - Memórias dúbias de Amélia de Leuchtemberg, o preferido desse amigo. Mas não era o meu. Mesmo assim, gostei bastante e anos depois fiquei emocionado quando vi parte do seu enredo incorporado à minissérie da TV Globo O quinto dos infernos. Nela, a atriz Cláudia Abreu interpreta a própria Dona Amélia de Leuchtemberg, essa segunda esposa de D. Pedro que a história parece ter esquecido. Ivanir Calado, por sua vez, também dá voz à Imperatriz, só que 150 anos após a sua morte. Conta sobre a sua infância na Alemanha, o casamento aos 17 anos, a revolução que fez na corte e a tomada de assalto do coração do imperador. Biografia e literatura se misturam para que possamos saber um pouco mais da nossa história. Para que possamos nos conhecer melhor.
Trecho: "Morri, dizem os livros e com isso devo concordar, em 26 de janeiro de 1873. Não interessam os detalhes, pelo menos agora: ainda não creio que seja o momento de chamar o personagem odioso a estas páginas de branco imaculado. Mas houve o clássico instante gigantesco em que toda a vida, todos os sessenta anos no plano da realidade mecânica me passaram por dentro da retina. Depois fiquei sabendo que isso, ao invés de qualquer preparação mística para a vida eterna, é apenas o último e desesperado esforço da natureza buscando negar o fim: a memória se agrupa numa enorme unidade independente que será nosso eu após a vida — aquilo que muitos confundem com espírito, aquilo que muitos que já morreram pensam ser apenas a transição para o espírito verdadeiro."
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RESENHA #09: "FOLIAS DE APRENDIZ"
Geraldo Carneiro | História Real | 237 páginas
Na década de 90, talvez em 1996, quem sabe às sextas-feiras, era sempre agradável passar em uma banca antes do trabalho, comprar um exemplar do jornal O Dia e ficar lendo e relendo, dentro da barca que deslizava sobre as águas da Baía de Guanabara, a coluna semanal do Geraldo Carneiro. Eu era jovem e ele genial. Eu tinha um monte de sonhos para realizar e ele já parecia meio cansado de muita coisa aqui. Geraldo escrevia crônicas que misturavam o cotidiano carioca com reflexões literárias e políticas, mantendo um tom lírico e bem-humorado. Ele rabiscava sobre o Rio, música, poesia e os personagens da cidade, muitas vezes com aquele olhar de quem viveu o efervescente Leblon dos anos 70 e 80 (tema que ele explorou também no livro Leblon - Crônica dos Anos Loucos). Naquela época, o jornal O Dia buscava modernizar seu caderno de cultura e opinião, trazendo intelectuais e artistas para dialogar com o grande público. Até o meu Fluminense, e também o Fluminense dele, virou alvo de chacota por conta do seu primeiro rebaixamento. Aliás, procurei na internet essa crônica, mas não achei. O jornal O Dia de 1996 também sumiu, praticamente não há registro dele. O título "Segunda (ou Terceira) Divisão" deve existir somente na minha cabeça. Mas, apesar de toda essa escassez de apontamentos, guardei daqueles textos o gosto, guardei no meu coração o tom. E é esse tom que reencontro em Folias de Aprendiz, livro que Geraldinho lançou em 2022: "Livro de memórias, romance de formação, crônica de costumes", é o que está escrito na orelha da capa amarela. Para mim, no entanto, é muito mais do que isso.
Trecho: "A literatura era meu consolo. Eu chegava em casa às onze, só me restava o mundo das palavras. Aos 13 anos, já havia lido versões para a juventude de alguns clássicos inofensivos. Por essa época li O processo, O castelo e A metamorfose, de Franz Kafka, meu escritor favorito naquele tempo. Fiquei chocado com a constatação de que O processo contava a história de um ser humano perseguido por um ato que não sabia qual era. Joseph K. e eu éramos companheiros de infortúnio. E, para piorar, também me sentia como alguém que despertou e viu-se transformado num abominável inseto."
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RESENHA #08: "CONTRAPONTOS: UMA BIOGRAFIA DE AUGUSTO LICKS"
Fabrício Mazocco, Silvia Remanso | Belas Letras | 320 páginas
Conheci a música "Infinita Highway", bem como a a banda gaúcha Engenheiros do Hawaii, pela voz e violão de um amigo, numa noite estrelada de cantoria ao redor de uma fogueira. O ano era 1987 e eu estava atrasado, pois os Engenheiros já faziam sucesso desde 86. Só sei que, a partir dali, fui pra versão original em vinil e procurei compensar o tempo perdido, virando fã de primeira linha do grupo. Augusto Licks, guitarrista da segunda formação, estreou no álbum icônico A Revolta dos Dandis, aquele disco intimista de capa amarela. Lembro de ficar observando o trabalho do Augusto nos shows como se a banda fosse somente ele: gestual comedido, expressão concentrada e cigarro aceso preso ao braço do instrumento, por onde ele fazia os solos mais bonitos do rock nacional. No livro Contrapontos: uma biografia de Augusto Licks, Fabrício Mazocco e Silvia Remanso contam a trajetória do músico desde a infância no interior do Rio Grande do Sul, passando pela parceria com Nei Lisboa e pelo estrelato nos Engenheiros, incluindo a sua saída da banda e o impacto que essa separação teve em sua vida.
Trecho: "Quando os Engenheiros convidaram Licks para entrar na banda eu fiquei surpreso. Todo mundo ficou surpreso. Não combinava o estilo, o jeito de tocar... várias coisas. Humberto, com seus trocadilhos e frases de efeito, disparou: 'Licks não precisa nem tocar, só aquela luzinha do fender twin acesa já basta'. Claro que não era bem assim! Já nos ensaios Licks comentava que era tudo muito estranho, diferente. Eu achava que não ia dar certo. E a partir daí nossas conversas foram diminuindo, na mesma proporção que a banda subia nas paradas."
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RESENHA #07: "NOVO MUNDO EM CHAMAS"
Viktor Waewell | Selo Independente | 420 páginas
Estávamos na pandemia da Covid-19, inseguros quanto ao futuro e ao presente, mergulhados em obscurantismo e guerra de narrativas. Até que um dia, em uma rede social, o algoritmo começou a me entregar alguns recortes em vídeo — animações vintage que falavam de um livro. Não dei atenção no início, mas aquilo já havia me tocado. Então, em uma tarde de domingo, tomei a iniciativa de solicitar o meu exemplar e me tornei fã do Viktor Waewell, autor do romance histórico Novo Mundo em Chamas. O livro conta a história de Ernesto, sargento do Exército que, após ajudar a expulsar os holandeses do Nordeste, se volta contra uma nova empreitada da Coroa e de fidalgos gananciosos: a destruição de Palmares.
Trecho: "Canhões portugueses abriram fogo e todos souberam, de ambos os lados da batalha, que os mortos começariam a se empilhar. Foram duas semanas de espera, escravos e suas pás dia e noite cavando trincheiras em zigue-zague para aproximar a artilharia do forte inimigo. Sargento Ernesto sentiu o coração pulsar com a sinfonia da guerra. Talvez o barulho mais alto já ouvido no Novo Mundo, desde que o mundo havia começado. A fúria da batalha sem fim. Pássaros revoavam pela região, a floresta ancestral perturbada. O estômago revirou. Pois cabia a ele liderar o assalto de infantaria."
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RESENHA #06: "FLORILÉGIO"
Vitor Souza | Selo Independente | 96 páginas
"Florilégio", segundo livro lançado por Vitor Souza, é uma pequena coletânea de textos escritos entre 2020 e 2025. O livro abre com um relato, segue com textos curtos e encerra com uma homenagem. Mas não se engane com o número reduzido de páginas, pois nesta obra você encontrará drama, política, humor, lirismo, nostalgia e muitas outras coisas. Em um mundo inundado por "inflações semióticas", a semântica presente em Florilégio é um presente ao espírito!
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RESENHA #05: O GOVERNO OCULTO DO MUNDO: CRÔNICAS DO REALISMO FANTÁSTICO
Vitor Souza | Selo Independente | 184 páginas
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RESENHA #04: "NO AR REREFEITO"
Aproveitando o embalo do fim da leitura de Na natureza selvagem, corri para No ar rarefeito, que muitos consideram o melhor livro de Jon Krakauer. Nesta obra o autor tenta superar, através do seu impressionante relato, o trauma vivido por ele na expedição que o fez chegar ao pico do Monte Everest em 1996, o mais alto do mundo! Na tragédia em que 12 pessoas morreram, Krakauer estava lá como repórter da revista Outside e integrou a equipe da Adventure Consultants, liderada por Rob Hall. Trata-se de um relato emocionante e comovente, que mistura jornalismo investigativo com memórias pessoais. Krakauer questiona a comercialização do Everest e o preço de levar clientes inexperientes e ricos para o que ficou conhecido como "o topo do mundo".
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RESENHA #03: "NA NATUREZA SELVAGEM"
Uma coisa importante que fiz em 2023 foi finalmente ler este livro, embora eu já conhecesse a história há anos por obra do excelente filme dirigido por Sean Penn, com trilha sonora do Eddie Vader. Mas revisitar o drama e a jornada de Chris McCandless, nas palavras de Jon Krakauer, me fez reviver novamente e com muito mais intensidade a caminhada deste beat dos anos 90, que a partir da leitura, passei a considerar como um irmão. Jon Krakauer refaz a trajetória de Alexander Supertramp, como Chris também era chamado. Uma trajetória que o levou a encontrar a morte no Alasca. O livro revela a América dos que vivem à margem, que pegam carona, que circulam em carros velhos, vivendo em acampamentos e cidades estranhas. Ele também compara a história do jovem com a de outros solitários que tiveram fim trágico. O resultado é uma narrativa que alterna pesadelos e sonhos.
Trecho: "Saudações de Fairbanks! Esta é a última vez que você terá notícias minhas, Wayne. Cheguei aqui há dois dias. Foi muito difícil pegar carona no território de Yukon. Mas finalmente cheguei. Por favor, devolva toda a minha correspondência para os remetentes. Posso demorar muito até voltar para o Sul. Se esta aventura se revelar fatal e você nunca mais tiver notícias de mim, quero que saiba que você é um grande homem. Caminho agora para dentro da natureza selvagem. Alex."
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RESENHA #02: "ENTERREM MEU CORAÇÃO NA CURVA DO RIO"
Dee Brown | L&PM | 464 páginas
Enterrem meu coração na curva do rio é a mais importante narrativa já escrita sobre o genocídio a que foram submetidos os indígenas norte-americanos no processo de colonização de seu território. Mediante extensa pesquisa e lançando mão de fontes variadas, como registros oficiais, autobiografias, depoimentos e descrições de primeira mão, Dee Brown dá voz a grandes chefes e guerreiros de tribos como dakota, ute, sioux e cheyenne. As invasões dos brancos, os massacres, as negociações e os rompimentos de acordos. Neste livro está contado, sob o ponto de vista (legítimo) dos indígenas, todo o processo que levou ao seu aniquilamento e quase extermínio, bem como à devastação da natureza selvagem. Uma obra atualíssima!
Trecho: "Este não é um livro alegre, mas a história tem um jeito de se introduzir no presente, e talvez os que o lerem tenham uma compreensão mais clara do que é o índio americano, sabendo o que ele foi. Poderão surpreender-se ao ouvir que palavras gentis e ponderadas saem da boca de índios estereotipados no mito americano como selvagens impiedosos".
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RESENHA #01: "OS VAGABUNDOS ILUMINADOS"
No final dos anos 50 do século passado, nos Estados Unidos, um movimento social e cultural, encabeçado pelos escritores Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Bourroghs, o movimento beat, espalhou-se feito uma saudável praga pela Nova Inglaterra, terminando por se tornar o estopim de outro ainda maior, e que ficou conhecido, inclusive aqui no Brasil, como movimento hippie.
Jack Kerouac foi o principal nome da geração beat. Seu romance autobiográfico On the road (que por sinal foi transformado em filme pelo “brazuca” Walter Salles, o mesmo diretor de Diários de Motocicleta, influenciou legiões de artistas e intelectuais ao logo da segunda metade do século XX. Mas é de outro romance de Jack, no caso "Os vagabundos iluminados", que a presente resenha se propõe a tratar.
Destoando um pouco de toda a produção literária beatnik, sempre melancólica e realista ao extremo, Os vagabundos iluminados é uma obra direcionada ao melhor do espírito humano. O livro conta a história de Ray Smith e seu amigo Japhy Rider, andarilhos errantes e zen-budistas que, entre escaladas de montanhas, trilhas litorâneas e saraus de poesia, buscam o autoconhecimento através de experimentos místicos e reflexões filosóficas. Depois de ler esse livro, até a mais depressiva e derrotista das criaturas passa a devotar uma gana e uma gratidão pela vida bonitas de se ver. Para quem ainda não conhece a literatura dos beatniks, ou nunca ouviu falar, nunca é tarde...
Trecho: “Lá embaixo, no lago, reflexos rosados de vapor celestial apareceram, e eu disse: ‘Deus, eu te amo’. E olhei para o céu e falei sério mesmo: ‘Eu me apaixonei por você, Deus. Tome conta de todos nós, de um jeito ou de outro’”.
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