Resenhas
RESENHA #17: "AS CAVERNAS DE AÇO"
Isaac Asimov | Editora Aleph | 304 páginas
— De certa forma — comentou o Comissário —, sinto muito que esteja chovendo. Não podemos ver a Vila Sideral.
Baley olhou para o oeste, mas, como disse o Comissário, não dava para ver nada. O horizonte estava escuro. As torres de Nova York foram tomadas pela névoa e se desvaneceram em uma brancura total.
— Eu sei como a Vila Sideral é — resmungou Bailey.
RESENHA #16: "ESTORVO"
Chico Buarque | Companhia das Letras | 160 páginas
Trecho: "Para mim é muito cedo, fui deitar dia claro, não consigo definir aquele sujeito através do olho mágico. Estou zonzo, não entendo o sujeito ali parado de terno e gravata, seu rosto intumescido pela lente. Deve ser coisa importante, pois ouvi a campainha tocar várias vezes, uma a caminho da porta e pelo menos três dentro do sonho. Vou regulando a vista, e começo a achar que conheço aquele rosto de um tempo distante e confuso. Ou senão cheguei dormindo ao olho mágico, e conheço aquele rosto de quando ele ainda pertencia ao sonho. Tem a barba. Pode ser que eu já tenha visto aquele rosto sem barba, mas a barba é tão sólida e rigorosa que parece anterior ao rosto. O terno e a gravata também me incomodam. Eu não conheço muita gente de terno e gravata, muito menos com os cabelos escorridos até os ombros. Pessoas de terno e gravata que eu conheço, conheço atrás de mesa, guichê, não são pessoas que vêm bater à minha porta."
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RESENHA #15: "O CHEIRO DO RALO"
Lourenço Mutarelli | Companhia das Letras | 184 páginas
Lourenço Mutarelli é um artista de mil faces. Além de escritor, também atuou no cinema e no teatro, inclusive interpretando personagens próprios, em adaptações de livros seus. Desenhou e roteirizou histórias em quadrinhos para fanzines diversos. Trata-se de uma pessoa que de fato admiro! Por isso, é imperdoável que até hoje eu tenha lido apenas um livro dele. Sim, um. E esse é O cheiro do ralo, lançado em 2002 e adaptado para o cinema pelo diretor Heitor Dhalia, tendo Selton Mello no papel principal. Nesse seu primeiro romance (que reza a lenda, foi escrito em 5 dias), Mutarelli conta a história de um proprietário de uma loja de quinquilharias. Cínico e egoísta, ele explora cruelmente as pessoas que o procuram para lhe vender coisas. Torna-se obcecado pelo fétido cheiro que sai do ralo de um banheiro e pela bunda de uma garçonete. Até que as palavras amargas ditas por uma pessoa que humilhou, disparam nele um processo interno cheio de delírio e de dor. Sentir o cheiro do podre que temos guardado nunca é agradável. Mas talvez necessário. É isso que O cheiro do ralo propõe.
Trecho: "Eu já tenho o olho. Agora que paguei, tenho a perna. Sei que, com o tempo, vou montá-lo. Vou montar o meu pai. Meu pai Frankenstein. O pai que se foi. Se foi, antes que eu o tivesse. Foi, antes de eu nascer. Nem me viu. Nunca voltou. Foi. Ele só saiu com minha mãe uma vez. Eu nem sei o seu nome. Nem sei se um nome ele tem. Ele nem sabe como eu sou. Ele nunca me viu. Eu só o imaginei. A vida inteira. Eu mesmo lhe dei um nome. Eu mesmo o batizei. Eu mesmo cuidei de criá-lo. De cada detalhe, eu cuidei. Meu pai, fui eu que inventei. Ele nunca soube o que eu sinto. Não soube o quanto o amei. Ele não sabe que rezo todas as noites. Ele não sabe. Ele não sabe como é minha cara. Nem sabe como ela foi. Não sabe que eu fui criança. Não sabe que a cicatriz do joelho foi da vez que eu caí. Ele não sabe que existo. Eu fiquei. Ele é mais triste que eu. Talvez, ele não tenha ninguém. Eu tenho ele. Meu pai Frankenstein."
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Charles Bukowski | L&PM | 272 páginas
Henry Charles Bukowski nasceu em Andernach, Alemanha, em 16 de agosto de 1920. Mas foi nos EUA, especificamente na efervescente Los Angeles da primeira metade do século 20, que ele se criou. Filho de um pai autoritário e de uma mãe submissa, Henry teve uma infância e uma adolescência difíceis, esse segundo período marcado por um problema crônico de acnes severas. Uma inflamação que praticamente o transformou num pária social e afetivo. Mas como o certo quase sempre se dá por linhas tortas, Bukowski descobriu ainda cedo o álcool e os livros. Sem isso seu nome teria certamente encontrado o caminho do esquecimento. "Em Notas de um velho safado" ele retoma sua trajetória e expõe a visão de mundo que resultou dela. Boêmia, poesia, depravação e santidade formam o caldo de uma América pobre e terrivelmente real. Ler essas páginas é mergulhar de cabeça nele.
Trecho: "comecei a fechar a porta e ela ergueu a bolsa por sobre a cabeça, “seu PODRE dum filho da puta!” eu vi a bolsa descendo e apenas fiquei ali com um sorrisinho tranquilo no meu rosto. já me meti em algumas brigas com uns caras da pesada; uma bolsa de mulher era a última coisa com a qual me preocuparia. ela veio. eu a senti. muito. ela tinha estufado a coisa e no canto da frente, a parte que me atingiu em cima da cabeça, tinha um frasco de creme de limpeza. foi como uma pedra. “baby”, disse. eu ainda sorria forçadamente e me segurava na maçaneta da porta, mas não podia me mexer, eu estava gélido. ela desceu a bolsa de novo. as pernas começaram a ir. enquanto eu me dobrava lentamente para baixo ela seguiu descendo a alavanca sobre o topo da minha cabeça. e ela foi mesmo cada vez mais rápido, como se estivesse tentando rachar meu crânio. foi meu terceiro nocaute numa carreira relativamente marcante, mas o primeiro de uma mulher."
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RESENHA #13: "MÊS DE CAẼS DANADOS"
Moacyr Scliar | L&PM | 190 páginas
Trecho: "Sou de um tempo que já passou – e não sou velho, hein? Olha que não sou velho. A barba e o cabelo estão crescidos e um pouco grisalhos, mas não sou velho. Os dentes, estragados – mas não sou velho. Estou bem lúcido. Lúcido e articulado. Falo bem. E até com eloquência; sou razoável como orador, embora não tenha completado minha formação. As palavras que uso, falando, muita gente não usa, escrevendo, sabes? Grava e depois escreve o que estou te dizendo, e verás. Tens um gravador aí na bolsa, não tens? Eu sei que tens. Conheço a moderna tecnologia da informação. Mantenho-me atualizado – graças às folhas de jornais que o vento me traz, graças às revistas que certa senhora me dá, graças à proximidade da Biblioteca. Recapitulando: o peticionário, lúcido e eloquente, testemunha de um passado convulso, requer a Vossa Senhoria se digne aumentar a contribuição a que tem direito como indigente. Paga, rapaz. Pagando vais ouvir uma boa história. Ah, agora sim. Agora está bem. Essa contribuição foi substancial. Sinto-me animado, pronto para começar. Deixa eu pigarrear, deixa eu limpar esta garganta que o vento do rio começa a enferrujar. Pronto. Quando quiseres, podes ligar o gravador."
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RESENHA #12: "O GÊNIO DO CRIME"
J. C. Marinho Silva | Ediouro | 160 páginas
Trecho: "Era um mês de outubro em São Paulo, tempo de flores e dias nem muito quentes nem muito frios, e a criançada só falava no concurso das figurinhas de futebol. Deu mania, mania forte, dessas que ficam comichando o dia inteiro na cabeça da gente e não deixam pensar em mais nada. Quem enchia o álbum ganhava prêmios bons e jogava-se abafa pela cidade: São Paulo estava de cócoras batendo e virando. Batia-se de concha, de mão mole, de quina, com efeito, de mão dura, conforme o tamanho do bolo, o jeito do chão e o personalíssimo estilo de cada um. Na Escola Primária Três Bandeiras o sino anunciou o recreio e o Edmundo saiu voando da classe para encontrar o Pituca no pátio. Os dois estudavam no Admissão, mas o Edmundo estava no 5º ano A e o Pituca no 5º ano B, e não tinham podido conversar ainda naquela manhã. Edmundo estava aflito; faz dois meses que só faltava o Rivelino para encher o álbum e poder ir lá na fábrica receber o prêmio. Comprara toneladas de envelopinhos e o Rivelino não saía, virou a cidade nos abafas até de Vila Matilde e do Tucuruvi e num dia foi num treino do Corinthians falar com o próprio Rivelino, inutilmente, porque o jogador também colecionava e não conseguia encontrar a figura dele mesmo."
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RESENHA #11: "O DESPERTAR DO UNIVERSO CONSCIENTE: UM MANIFESTO PARA O FUTURO DA HUMANIDADE"
Marcelo Gleiser | Record | 252 páginas
Marcelo Gleiser não seria a minha primeira opção ao entrar em uma livraria buscando algo interessante para folhear. Também não chamaria a minha atenção em uma estante na casa de alguém. Então, para ler algo dele, eu precisaria ser convencido. E foi precisamente isso que aconteceu com O despertar do universo consciente: Um manifesto para o futuro da humanidade. Nesse livro Gleiser tenta nos mostrar, com dados científicos, que existe uma possibilidade muito grande de estarmos de fato sozinhos no universo. Pois a existência da vida, bem como a de um planeta capaz de oferecer suporte a ela, são fatores nem um pouco banais. Para quem já desistiu de tentar trabalhar pela perenidade da espécie humana neste mundo, e está desejando ou projetando a nossa saída dele, o manifesto de Marcelo Gleiser é um tapa na fuça elegante e cheio de poesia.
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RESENHA #10: "IMPERATRIZ NO FIM DO MUNDO: MEMÓRIAS DÚBIAS DE AMÉLIA DE LEUCHTEMBERG"
Ivanir Calado | Selo Independente | 228 páginas
Conheci o escritor Ivanir Calado na minha adolescência, apresentado por um amigo. Li com voracidade A mãe do sonho e me pus a imaginar se o protagonista Jorge Damatta seria um reflexo do próprio "Ivo". Afinal, um personagem tão vivo só poderia ter sido inspirado em alguém. Tempos depois li outro livro dele, o interessante Imperatriz no fim do mundo - Memórias dúbias de Amélia de Leuchtemberg. Era o preferido desse amigo, mas não o meu. Mesmo assim, gostei bastante dele e anos depois fiquei emocionado quando vi parte do seu enredo incorporado à minissérie da TV Globo O quinto dos infernos. Nela, a atriz Cláudia Abreu interpreta a própria Dona Amélia de Leuchtemberg, essa segunda esposa de D. Pedro que a história parece ter esquecido. Ivanir Calado dá voz à Imperatriz 150 anos depois da morte dela. É a própria Amélia que conta a sua infância na Alemanha, o casamento aos 17 anos, a revolução que fez nos costumes da corte e a tomada de assalto do coração do imperador. Biografia e literatura se misturam para que possamos saber um pouco mais da nossa história. Para que possamos nos conhecer melhor.
Trecho: "Morri, dizem os livros e com isso devo concordar, em 26 de janeiro de 1873. Não interessam os detalhes, pelo menos agora: ainda não creio que seja o momento de chamar o personagem odioso a estas páginas de branco imaculado. Mas houve o clássico instante gigantesco em que toda a vida, todos os sessenta anos no plano da realidade mecânica me passaram por dentro da retina. Depois fiquei sabendo que isso, ao invés de qualquer preparação mística para a vida eterna, é apenas o último e desesperado esforço da natureza buscando negar o fim: a memória se agrupa numa enorme unidade independente que será nosso eu após a vida — aquilo que muitos confundem com espírito, aquilo que muitos que já morreram pensam ser apenas a transição para o espírito verdadeiro."
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RESENHA #09: "FOLIAS DE APRENDIZ"
Geraldo Carneiro | História Real | 237 páginas
Na década de 90, talvez em 1996, quem sabe às sextas-feiras, era sempre agradável passar em uma banca antes do trabalho, comprar um exemplar do jornal O Dia e ficar lendo e relendo, dentro da barca que deslizava sobre as águas da Baía de Guanabara, a coluna semanal do Geraldo Carneiro. Eu era jovem e ele genial. Eu tinha um monte de sonhos para realizar e ele já parecia meio cansado de muita coisa aqui. Geraldo escrevia crônicas que misturavam o cotidiano carioca com reflexões literárias e políticas, mantendo um tom lírico e bem-humorado. Ele rabiscava sobre o Rio, música, poesia e os personagens da cidade, muitas vezes com aquele olhar de quem viveu o efervescente Leblon dos anos 70 e 80 (tema que ele explorou também no livro Leblon - Crônica dos Anos Loucos). Naquela época, o jornal O Dia buscava modernizar seu caderno de cultura e opinião, trazendo intelectuais e artistas para dialogar com o grande público. Até o meu Fluminense, e também o Fluminense dele, virou alvo de chacota por conta do seu primeiro rebaixamento. Aliás, procurei na internet essa crônica, mas não achei. O jornal O Dia de 1996 também sumiu, praticamente não há registro dele. O título "Segunda (ou Terceira) Divisão" deve existir somente na minha cabeça. Mas, apesar de toda essa escassez de apontamentos, guardei daqueles textos o gosto, guardei no meu coração o tom. E é esse tom que reencontro em Folias de Aprendiz, livro que Geraldinho lançou em 2022: "Livro de memórias, romance de formação, crônica de costumes", é o que está escrito na orelha da capa amarela. Para mim, no entanto, é muito mais do que isso.
Trecho: "A literatura era meu consolo. Eu chegava em casa às onze, só me restava o mundo das palavras. Aos 13 anos, já havia lido versões para a juventude de alguns clássicos inofensivos. Por essa época li O processo, O castelo e A metamorfose, de Franz Kafka, meu escritor favorito naquele tempo. Fiquei chocado com a constatação de que O processo contava a história de um ser humano perseguido por um ato que não sabia qual era. Joseph K. e eu éramos companheiros de infortúnio. E, para piorar, também me sentia como alguém que despertou e viu-se transformado num abominável inseto."
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RESENHA #08: "CONTRAPONTOS: UMA BIOGRAFIA DE AUGUSTO LICKS"
Fabrício Mazocco, Silvia Remanso | Belas Letras | 320 páginas
Conheci a música "Infinita Highway", bem como a a banda gaúcha Engenheiros do Hawaii, pela voz e violão de um companheiro do escotismo. Naquela noite estrelada de cantoria ao redor de uma fogueira, em 1987, eu estava atrasado. É que os Engenheiros já faziam sucesso desde 86. Só sei que, a partir dali, fui para versão original em vinil e procurei compensar o tempo perdido, virando fã de primeira linha do grupo. Augusto Licks, guitarrista da segunda formação, estreou no álbum icônico A Revolta dos Dandis, aquele disco intimista de capa amarela. Lembro de ficar observando o trabalho do Augusto nos shows como se a banda fosse somente ele: gestual comedido, expressão concentrada e cigarro aceso preso ao braço do instrumento. Daquela união entre homem e guitarra, saíram os solos mais bonitos do rock nacional! No livro Contrapontos: uma biografia de Augusto Licks, Fabrício Mazocco e Silvia Remanso contam a trajetória do músico desde a infância no interior do Rio Grande do Sul, passando pela parceria com Nei Lisboa e pelo estrelato nos Engenheiros. Também não ficou de fora a sua saída da banda e o impacto que tal ruptura teve em sua vida.
Trecho: "Quando os Engenheiros convidaram Licks para entrar na banda eu fiquei surpreso. Todo mundo ficou surpreso. Não combinava o estilo, o jeito de tocar... várias coisas. Humberto, com seus trocadilhos e frases de efeito, disparou: 'Licks não precisa nem tocar, só aquela luzinha do fender twin acesa já basta'. Claro que não era bem assim! Já nos ensaios Licks comentava que era tudo muito estranho, diferente. Eu achava que não ia dar certo. E a partir daí nossas conversas foram diminuindo, na mesma proporção que a banda subia nas paradas."
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RESENHA #07: "NOVO MUNDO EM CHAMAS"
Viktor Waewell | Selo Independente | 420 páginas
Estávamos na pandemia da Covid-19, inseguros quanto ao futuro e ao presente, mergulhados em obscurantismo e guerra de narrativas. Até que um dia, em uma rede social, o algoritmo começou a me entregar alguns recortes em vídeo — animações vintage, que falavam de um livro. Não dei atenção no início, mas com a insistência da máquina, aquilo me tocou. Então, em uma tarde de domingo, tomei a iniciativa de solicitar o meu exemplar. Assim, virei fã do Viktor Waewell, autor do romance histórico Novo Mundo em Chamas. O livro conta a história de Ernesto, sargento do Exército que, após ajudar a expulsar os holandeses do Nordeste, se volta contra uma nova empreitada da Coroa e de fidalgos gananciosos: a destruição de Palmares. Venha conhecer a história de um jeito que nunca te ensinaram na escola!
Trecho: "Canhões portugueses abriram fogo e todos souberam, de ambos os lados da batalha, que os mortos começariam a se empilhar. Foram duas semanas de espera, escravos e suas pás dia e noite cavando trincheiras em zigue-zague para aproximar a artilharia do forte inimigo. Sargento Ernesto sentiu o coração pulsar com a sinfonia da guerra. Talvez o barulho mais alto já ouvido no Novo Mundo, desde que o mundo havia começado. A fúria da batalha sem fim. Pássaros revoavam pela região, a floresta ancestral perturbada. O estômago revirou. Pois cabia a ele liderar o assalto de infantaria."
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RESENHA #06: "FLORILÉGIO"
Vitor Souza | Selo Independente | 96 páginas
"Florilégio", segundo livro lançado por Vitor Souza, é uma pequena coletânea de textos escritos entre 2020 e 2025. O livro abre com um relato, segue com escritos curtos e encerra com uma homenagem. Mas não se engane com o número reduzido de páginas, pois nesta obra você encontrará drama, política, humor, lirismo, nostalgia e muitas outras coisas. Em um mundo inundado por "inflações semióticas", a semântica presente em Florilégio é um presente ao espírito!
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RESENHA #05: O GOVERNO OCULTO DO MUNDO: CRÔNICAS DO REALISMO FANTÁSTICO
Vitor Souza | Selo Independente | 184 páginas
Trecho: "Robert era apenas um músico itinerante e mediano, que vagava por cidades, apresentando-se e ganhando algum trocado. Até que, em 1932, desapareceu sem deixar pista; ressurgindo apenas em 1936 — misterioso, taciturno —, para participar de duas sessões de gravação: uma num hotel de Dallas, no mesmo ano, e outra em 1937, num armazém de San Antonio. Foram as duas únicas sessões de gravação da sua vida! Nelas, ele expôs 29 músicas, em duas versões para algumas, o que fez com que sua figura saltasse, para espanto de muitos, do anonimato à fama."
RESENHA #04: "NO AR REREFEITO"
Aproveitando o embalo do fim da leitura de Na natureza selvagem, corri para No ar rarefeito, que muitos consideram o melhor livro de Jon Krakauer. Nesta obra o autor tenta superar, através de um detalhado relato, o trauma vivido por ele na expedição que o fez chegar ao pico do Monte Everest, em 1996. Na tragédia em que 12 pessoas morreram, Krakauer estava lá como repórter da revista Outside e integrou a equipe da Adventure Consultants, liderada por Rob Hall. Trata-se de uma obra emocionante e comovente, que mistura jornalismo investigativo com impressões pessoais. Krakauer questiona a comercialização do Everest e o preço de levar clientes inexperientes e ricos para o que ficou conhecido como "o topo do mundo".
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RESENHA #03: "NA NATUREZA SELVAGEM"
Uma coisa importante que fiz em 2023 foi finalmente ler este livro, embora eu já conhecesse a história há anos. O excelente filme dirigido por Sean Penn, com trilha sonora do Eddie Vadder, mostrou ela para mim. Mas revisitar o drama e a jornada de Chris McCandless, nas palavras de Jon Krakauer, foi outra coisa. Me fez reviver e com muito mais intensidade a caminhada deste beat dos anos 90, que depois de leitura passei a considerar um irmão. Jon Krakauer refaz a trajetória que levou Alexander Supertramp (como Chris também era chamado) a encontrar a morte no Alasca. O livro revela a América dos que vivem à margem, que pegam carona, que atravessam fatigados ou inebriados regiões desconhecidas e cidades sem importância. Ele também compara a história do jovem com a de outros solitários que tiveram fim igualmente trágico. O resultado é uma narrativa que alterna pesadelos e sonhos.
Trecho: "Saudações de Fairbanks! Esta é a última vez que você terá notícias minhas, Wayne. Cheguei aqui há dois dias. Foi muito difícil pegar carona no território de Yukon. Mas finalmente cheguei. Por favor, devolva toda a minha correspondência para os remetentes. Posso demorar muito até voltar para o Sul. Se esta aventura se revelar fatal e você nunca mais tiver notícias de mim, quero que saiba que você é um grande homem. Caminho agora para dentro da natureza selvagem. Alex."
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RESENHA #02: "ENTERREM MEU CORAÇÃO NA CURVA DO RIO"
Dee Brown | L&PM | 464 páginas
Enterrem meu coração na curva do rio é a mais importante narrativa já escrita sobre um genocídio. O aniquilamento dos indígenas norte-americanos no processo de colonização do seu território. Mediante extensa pesquisa (como registros oficiais, autobiografias, depoimentos e descrições de primeira mão), Dee Brown dá voz a grandes chefes e guerreiros de tribos como Dakota, Ute, Sioux e Cheyenne. Descreve em detalhes as invasões dos brancos, os massacres, as negociações e os rompimentos de acordos. Enfim, ele procura mostrar, do ponto de vista dos indígenas, todo o processo que levou ao seu aniquilamento e quase extermínio — incluindo a devastação da natureza, para eles indiscutivelmente sagrada. Uma obra atualíssima!
Trecho: "Este não é um livro alegre, mas a história tem um jeito de se introduzir no presente, e talvez os que o lerem tenham uma compreensão mais clara do que é o índio americano, sabendo o que ele foi. Poderão surpreender-se ao ouvir que palavras gentis e ponderadas saem da boca de índios estereotipados no mito americano como selvagens impiedosos".
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RESENHA #01: "OS VAGABUNDOS ILUMINADOS"
No final dos anos 50 do século passado, nos EUA, um movimento social e cultural pegou aquela sociedade pós-guerra no contrapé. Encabeçado pelos escritores Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs, o movimento beat espalhou-se feito uma saudável praga pela Nova Inglaterra. Depois terminou por se tornar o estopim de outro ainda maior, e que ficou conhecido, inclusive aqui no Brasil, como movimento hippie.
Jack Kerouac foi o principal nome da geração beat. Seu romance autobiográfico On the road (transformado em filme pelo brazuca Walter Salles, o mesmo diretor de Diários de Motocicleta), influenciou legiões de artistas e intelectuais ao longo da segunda metade do século XX. Mas é de outro romance de Jack, no caso Os vagabundos iluminados, que na verdade eu quero falar.
Destoando de toda a produção literária beatnik, sempre melancólica e realista ao extremo, Os vagabundos iluminados é uma obra direcionada ao melhor do espírito humano. O livro conta a história de Ray Smith e seu amigo Japhy Rider, andarilhos errantes e zen-budistas. Entre escaladas de montanhas, trilhas litorâneas e saraus de poesia, eles buscam o autoconhecimento através de experimentos místicos e reflexões filosóficas. Depois de ler esse livro, até a mais depressiva e derrotista das criaturas passa a devotar uma gana e uma gratidão pela vida bonitas de se ver. Para quem ainda não conhece a literatura dos beatniks, ou nunca ouviu falar, nunca é tarde.
Trecho: “Lá embaixo, no lago, reflexos rosados de vapor celestial apareceram, e eu disse: ‘Deus, eu te amo’. E olhei para o céu e falei sério mesmo: ‘Eu me apaixonei por você, Deus. Tome conta de todos nós, de um jeito ou de outro’”.
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