Adeus Tina

Vinte dias atrás escrevi “Parfum?”, sobre a falta de criatividade nas propagandas de perfume. Ali, Tina Oiticica, do Universo Anarquico, teve a gentileza de me deixar um recado, preocupada com o meu bem-estar depois de ver um comentário meu no Twitter.

Eu, com a minha mania de viver para o trabalho e deixar a vida pessoal para depois, li o comentário e passei essas últimas duas semanas e meia pensando que eu precisava entrar lá no blog dela para dizer que, sim, estava tudo bem. Eu apenas precisava de cinco minutos pra dizer o quanto as visitas dela eram importantes e o quanto muitas vezes são os amigos virtuais que nos amparam e nos fazem sentir queridos.

Hoje, finalmente parei para dar um alô. Tina morreu. Seu marido, num dos gestos mais bonitos que eu já vi, continua o blog contando um pouco sobre ela. O choque, a culpa e o vazio são imensos. Nunca conheci Tina pessoalmente. Desde que voltei a blogar, há um ano e meio mais ou menos, ela sempre esteve aqui, em todos os posts, memes e reflexões. Foi um prazer ler seus escritos e compartilhar um pouco da minha vida com ela.

Mas faltaram cinco minutos de dedicação. E por isso este post é também um pedido de desculpas a todas as pessoas que semanalmente vêm aqui e não encontram nada. A todos que sempre comentam as minhas experiências, mas que quase nunca recebem um comentário de volta. É imperdoável que, mesmo sem tempo para blogar, eu não dispense uma hora por semana que seja para prestigiar laços tão distantes e ao mesmo tempo tão valiosos. E, Tina, fique bem.

Parfum?

Já faz algum tempo que propagandas de perfume têm me irritado. Na boa, acho que é o mesmo carinha preguiçoso que inventa os comerciais de todas as marcas. É tudo sempre igual!!!!

Uma musiquinha bacana de alguma banda despontando na NME, um vestidinho da própria grife, uma mulher ou um cara andando de um lado pro outro e balbuciando qualquer coisa que não dá nem vontade de entender.

Quem mais tem trabalho ali é a pessoa do cenário, que coloca pétala de rosa boiando na água, frasco pendurado em árvore ou uma janela enorme com uma vista sensacional.

Agora, sério, de verdade: cadê a criatividade desse povo?

Berlim – RATM o setlist

Muita gente me perguntou o setlist do show do RATM. Eu não lembro exatamente a ordem das músicas. É tanta adrenalina que a gente fica meio desbaratinado e sem saber o que aconteceu depois. Pelo o que eu andei checando, estou 99% certa . Vejam:

Testify
Bulls on Parade
People of the Sun
Bombtrack
Know your Enemy
Bullet in the Head
Clampdown (The Clash – cover)
Guerilla Radio
Ashes in the Fall
Calm like a Bomb
Sleep Now in the Fire
Wake Up

1o bis:
Freedom
Township Rebellion ( ?? – não me lembro, mas acho que tocaram sim)
Killing in the Name

2o bis:
Tire Me
War Within a Breath

E aqui um video que achei no Youtube, de Guerrilla Radio. Absolutamente sensacional. Me arrepia…

Berlim: os últimos dias

Resolvi ir até Potsdam onde fica o Palácio Sanssouci. Ao contrário do que eu disse antes, esta sim é a versão alemã de Versalhes (mas os franceses são mesmo bem melhores). Pra variar, a saga. Você teoricamente pega o metrô até a estação de Potsdam Hauptbahnhof.

Acontece que ao chegar lá não existe qualquer sinal de palácio em lugar nenhum. Você finalmente encontra uma placa do outro lado da rua. “Park Sanssouci 2,5″. E pensa que o lugar está a alguns quilômetros dali. Mas isso é só até a próxima placa. Aí você começa a querer perguntar pras pessoas pra ter certeza de que está na direção certa. E elas não falam inglês.

- Schloss Sanssouci?

- Ja. Habpshdh hopfen brack folgoldolptham… blabs.

- Ah, ok. I go straight ahead and then turn right?

- Ja. Habpshdh hopfen brack folgoldolptham… blabs.

Bem, assim foram 10 dias em Berlim. Perdida que só, andando que nem louca para achar os lugares, mas feliz da vida porque toda vez que entrava na rua errada descobria alguém ou alguma coisa interessante pra observar — pra depois ter que andar outra vez que nem camela até chegar ao local que estava originalmente procurando.

Schloss Sanssouci, residência de verão de Frederico, o Grande, vale pelo jardim mais do que pelo palácio em si, embora sempre seja bacana aprender algo novo sobre como viviam reis e rainhas de diferentes partes do mundo. A cidade de Potsdam é bem pacata, de arquitetura colonial e com aposentados andando de iate pelo canal. Cheia de cafés e restaurantes fofos, as flores já começavam a dar graças pela primavera. Foi um dia agradável e sossegado.

Depois aproveitei meus últimos momentos em Berlim pra comprar bugigangas e voltar aos bairros que mais me encantaram: Mitte, Friedrieschain e Kreuzberg. Restaurantes vegetarianos e cosméticos naturais estão em alta, mas nada como Londres onde tudo que é tendência tem que obrigatoriamente ser orgânico. Os fair trade shops também fazem sucesso por aqui. Não são muitos como na terra da rainha Elizabeth, mas já começam a ser hype.

Os cabeleireiros são um passeio à parte. Entrei em um onde metade do salão foi transformado em bar. É cheio de gente descolada, os móveis são ultramodernos e você pode ver e ser visto enquanto espera para dar um tapa no look. Não, eu não tive coragem de arriscar fazerem nada comigo em alemão…

Fui curtir a loja de livros de outro squat, o Der MehringHof, que é um centro cultural incrível, com um teatro independente e essa biblioteca, onde até consegui encontrar alguns títulos em outros idiomas. Passei horas ali mais uma vez prestando atenção nas pessoas, nas cores dos cabelos, nas posições dos piercings, nas barras das calças sem barra, etc.

E é isso. Essas foram as minhas férias-relâmpago. As bolhas estão de matar, mas a cabeça volta pra São Paulo em outra sintonia, graças a Deus. Deu um mega mau-humor de ter que voltar. Mas… Tudo sempre acaba, não é mesmo?

Berlim: Stasi, nazis & dogs

Uma coisa tem realmente me irritado: eles odeiam cartao de credito e varias lojas e restaurantes nao aceitam. Ou seja, to sempre contando trocado pra ver se o dinheiro que eu trouxe vai durar ateh o final. Por essa eu nao esperava!

Outra coisa eh um pouco desagradavel: sempre que a Turquia joga uma boa parte dos alemaes torce contra. Acontece que aqui isso nao eh uma briguinha tipo corinthiano versus sao paulino, e somos todos brasileiros. Essa eh uma briga entre duas culturas que precisam conviver e se aceitar. Bem complicado…

Caes. Eu simplesmente adoro como cachorros aqui sao educados, apesar da sujeira que deixam pelas ruas (e que os donos nao recolhem). Estava eu outro dia numa tratoria “almojantando” e eis que entra um casal com dois (!) labradores, senta na mesa ao lado e janta em companhia canina. Os cachorros nao pulam, nao pedem comida, nao importunam as outras pessoas, nao latem e nao saem do lugar. No minino adestrador aqui deve ganhar uma grana! No metro, alias, eles sao super sossegados. Amei.

Minha jornada neste final de semana teve mais a ver com holocausto e regime sovietico. Visitei a Gedenkstatte, uma prisao da Stasi que ainda mantem celas, moveis e acessorios da epoca em que a Uniao Sovietica dominou Berlim oriental.

O que vale mesmo eh a tour de duas horas em que o guia conta varias curiosidades sobre a barbarie cometida pelos comunistas. Inclusive como eles usavam a desculpa de que as prisoes e as torturas precisavam existir porque os presos eram nazistas, quando na verdade eles mantinham ali todo tipo de pessoa que arriscasse ir contra suas politicas.

Apos os anos 60, preocupados com sua imagem internacional, os comandantes da Stasi trocaram a forca fisica pela tortura psicologica. Eles muitas vezes proibiam os presos de sentar na cama durante o dia e os isolavam completamente, sem que pudessem falar com ninguem, nem com os soldados. O silencio, em boa parte do tempo, soh era quebrado com interrogatorios. Caminhar no quarteirao da prisao tambem eh uma aula de historia, jah que varios dos predios ali desativados perteceram a Stasi, servindo como laboratorio quimico, refeitorio, dormitorio de soldados, etc.

Fui tambem a Sachsenhausen, um campo de concentracao que foi usado tanto pelos nazistas quanto pelos comunistas. Nunca tinha ido a um desses campos antes e fiquei impressionada. O audio guide traz depoimentos reais de ex-prisoneiros. Ou seja, em cada cela voce escuta alguem contando algo horrivel.

As partes do campo que mais me impressionaram foram os dormitorios, onde vi aquelas beliches medonhas que sempre aparecem em filmes de holocausto, a trincheira onde judeus e outros prisioneiros eram executados a sangue frio e a camara de gas.

O crematorio tambem eh bem bizarro e ha varios tumulos espalhados pelo campo, inclusive em alguns deles soh estao as cinzas humanas que ficaram espalhadas por ali durante anos. Entender as diferencas de como o mesmo lugar foi usado de formas absurdas pelos dois regimes politicos foi interessante e incrivelmente deprimente. A Alemanha viveu tempo demais sob terror e sofreu demais com atraso economico e social por conta disso.

Mas descobri o lugar mais legal de Berlim: Friedrichshain. Eh onde ficam todas as pessoas mais “cool”, os restaurantes, bares e (pasmem!) roupas mais sensacionais. Conheci o Ralph, vendedor de uma loja de pecas “vintage” que mudou de Hamburgo pra Berlim ha tres anos e com ele fui ateh o Raw, um squat gigante, onde estah a rampa de skate e onde rolam festa muito legais, principalmente no Cassiopeia, um espaco pra eventos e shows dentro do Raw.

Tava morta e nao aguentei esperar a rave que iria acontecer ali depois da meia-noite, mas adorei ver a galera, prestar atencao nos looks, reparar que a moda aqui sao franjas coloridas e minissaia por cima do jeans com sapatilha de bico fino, alem de um monte de outras coisas bacanerrimas. Friedrichshain foi o “must” do meu final de semana.

Berlim: relax…. hum, acho que nao

Apesar da chuva me preparei toda pra ir a Charlottenburg, a versao alema do Palacio de Versalhes. Eh bem bonito, mas obviamente Versalhes eh insuperavel. De novo, uma questao de logica. Voce chega no museu e deixa a bolsa em um guarda-volumes, mas a garrafa d’agua em outro. Claro que eu fui embora e esqueci a agua lah. O audio guide vem com instrucao. Ao inves do numero correspondente ficar ao lado de cada obra que sera explicada, aqui voce precisa carregar um papel e ficar procurando o que apertar no guia.

Achei que fosse passar o dia todo ali, mas na verdade depois de quatro horas eu jah tinha visto tudo. Que delicia poder ficar parada pensando o que fazer sem qualquer tipo de preocupacao. Fisicamente acho que esta eh uma das viagens mais cansativas se levar em conta que vim ficar poucos dias. Mas mentalmente nunca foi tao sensacional.

Decidi voltar pra Kreuzberg. No metro um punk tira da mochila um cranio (espero eu que seja de plastico) e fica o caminho todo ateh a estacao de Kottbusser Tor lustrando a caveira com um paninho preto. Bastante bizarro.

Fiz uma horinha e depois fui ao SO 36, uma das casas de show mais tradicionais de Berlim. O lugar estava lotado de punks e moderninhos jah que a atracao da noite foi o EA 80, uma banda alema “das antigas” que lembra um pouco Joy Division com Fugazi e New Model Army. Nao sei definir exatamente…

O show foi incrivel e conheci a Bettina, uma taxista de 40 anos com metade do cabelo pink e, que eu contei, nove piercings. Paramos pra tomar um cafe depois do show e nunca isso foi tao esclarecedor na minha vida. Bettina eh uma pessoa de conviccoes fortes. Eh sociologa, super inteligente, mas prefiriu aderir a “contra-cultura”, como ela mesma define, por uma questao de principios.

“Como posso trabalhar de forma social numa Alemanha que, depois da reunificacao, cortou metade da verba pra trabalhos sociais porque a parte ocidental nao precisa mais parecer bacana e se sobrepor ao lado oriental? Aqui soh existiu investimento enquanto existiu a necessidade de propaganda politica. Mas tambem nao poderia ter outro tipo de trabalho que me desrespeitasse como pessoa”, ela disse.

Porem, aos 40 anos (recem-completados), Bettina comeca a pensar no futuro. “Eu nao tenho a menor vontade, nunca tive, de chegar ao topo de nada. Mas viver o tempo inteiro “at the bottom” tah comecando a encher o saco. Eh muito dificil e realmente preciso tomar algumas decisoes na minha vida”.

Ou seja, nao importa o lugar do mundo, a tribo, nem as conviccoes. Uma hora todo mundo precisa crescer (se eh que este eh o termo certo). Mesmo num pais como a Alemanha onde o individualismo eh extremamente respeitado e grande parte das pessoas (de todas as idades) tem o cabelo, a tatutagem, o piercing e o rasta que quiser, Bettina paga o preco de ter aberto mao do “sistema”.

A velhice ta batendo na porta e com ela uma seria de preocupacoes que Bettina se deu ao luxo de nao precisar ter ateh os 40. Nao, ela nao vai pintar o cabelo de uma cor soh e colocar “terninho”. Mas eh bem provavel que a gente ouca falar de Bettina em busca de um emprego mais tradicional, marido, filhos e todas essas coisas pseudo-burguesas que a sociedade tanto joga na cara.

Bem, do cafe fomos pro Kato, uma balada punk/gotica onde das pessoas se parecem com o vocalista do Prodigy, o Robert Smith, do The Cure, ou o Wattie, do Exploited. Me senti nos aureos tempos do Madame Sata, em Sao Paulo, dancando Sisters of Mercy e Dead Kennedys do lado de um cara com uma saia de couro ateh o tornozelo, metade da cabeca raspada e pintada de azul.

Varias pessoas que estavam no show foram para la e acabei conhecendo uma porcao de outros amigos da Bettina. Fiquei sabendo de varios outros enderecos interessantissimos pra visitar em Berlim e lojas onde eu corro serios riscos de fazer estragos financeiros. Foi um dia longo e divertidissimo. E meus pes estao realmente comecando a fazer contagem regressiva…

Berlim: entrando mais no relax

Chuva e frio, muito frio. Aproveitei pra ir ao museus Pergamon e Altes. Sao bacanas, nao muito grandes nem complicados de visitar e passear novamente por essa parte historica da cidade eh sempre muito agradavel. Mas nao estava muito no “mood”. Ate porque, embora sejam museus importantes, nao trazem as melhores colecoes. Definitivamente Franca, Italia, NY e Londres impressionam bem mais.

Aproveitei pra espiar de novo as lojinhas do Hackescher Markt e da Rosenthaler Strasse. Repito, moda eh igual a Vila Madalena. Mas coisas de brecho aqui sao o maximo. Muito baratas e em perfeito estado. E coisas de decoracao tambem sao mto legais. Vi, por exemplo, um lustre incrivel feito de garrafa pet amassada. Aqui tb estao na moda as lojas que vendem penduricalhos, pingentes, contas e acessorios pra montar bijuterias. Elas normalmente tem vitrines coloridissimas, chamam super a atencao e dah pra comprar pecas muito bacanas.

Bem, reciclagem aqui eh tudo. As sacolas de plastico no supermercado custam entre 20 e 50 centavos. Ou seja, todo mundo vai as compras com a sua propria sacola de pano. Nos bares funciona assim: a cerveja custa, sei lah, 3 euros. E se vc entregar no balcao o copo de plastico ou a garrafa eles te devovem 20 centavos ou dao essa quantia de desconto na proxima bebida.

Nos arredores da Rosenthaler Strasse fica o Clarchens Ballhaus, um cabaret dos anos 20 com um jardim tao delicioso que nao resisti sentar ali, tomar um capuccino e tirar umas fotos poeticas das flores a minha volta. Alias, eles nunca tem adocante. Ou talvez eu ate agora nao tenha conseguido explicar o que eu quero. Tenho tomado cafe puro ou com acucar mesmo.

Um museu bem ok e que nao leva mais do que meia hora pra ser visitado eh o Markishe Museum. Ele conta a historia de Berlim, mostra como a unificacao dos territorios da Prussia impos uma nova necessidade economica e introduziu a industrializacao, como a lampada e a energia eletrica tiveram um papel crucial no desenvolvimento da cidade e como Karl Schinkel comecou a projetar o que ainda hoje caracteriza a tipica arquitetura berlinense.

Terminei jantando no Oxymoron, no Hackescher Markt. Um lugar todo bacaninha onde a noite rolam Djs num ritmo meio lounge. Foi legal, mas um pouco “paulistano” e mauricinho demais pro meu gosto.

Berlim: os grafites

O tempo virou e gracas a Deus foi soh depois do show. Estes ultimos dias resolvi que iria dar um relax e comecei a sair do hostel um pouco mais tarde. Mas continuei andando um monte. Berlim eh toda grafitada exatamente como Sao Paulo deveria ser. E os squats dao outra cara pra cidade.

Squats sao predios abandonados normalmente arrematados em leilao publico a preco de banana ou ocupados por ONGs e outros movimentos alternativos que os transformam em centros culturais. O Kopi, em Kreuzberg, eh um dos mais famosos e varios punks moram ali. Em Mitte, que eh a parte historica e chiquezinha da cidade, perto do Hackescher Markt varios cafes e bares ficam numa area grafitada que costumava ser um squat.

Alias varios punks aqui sao mendigos. Eles passam o dia na rua pedindo esmola e a noite colam em algumas baladas, principalmente no proprio Kopi. Mas na quarta fui num lugar em Kreuzberg chamado Wild at Heart ver Sentiments (Alemanha) e Blitzkrieg Boys (Finlandia) e o esquema eh tipo o CB, em Sao Paulo. Gente moderninha, limpinha e decoracao retro. A cena, pelo que pude perceber, eh bastante parecida com a nossa.

Na quarta visitei ainda a Berliner Dom, uma catedral muito bonita perto da ilha dos museus. Depois caminhei por Prenzlauer Berg, um bairro bacananinha que costumava ficar na parte oriental. Ha varias lojinhas descoladas e cafes gostosos, mas eh preciso andar em zigue-zague para acha-los. Eh onde fica tambem um enorme cemiterio judaico e uma antiga cervejaria que foi transformada numa mescla de mini-shopping com centro cultural, o Kulturbrauerei.

Tambem andei pelo Karl-Marx Allee, onde vivam os socialistas. Os predios, restaurados, dao uma ideia de como era a arquitetura tipica da epoca . Vi ainda a East-Side Gallery, outro pedaco remanescente do muro onde varios artistas do mundo todo pintaram grafites e manifestacoes. Passeei por uma feira de livros na universidade Humbolt e caminhei pelo Gendarmenmarkt. Ali perto fica a praca onde os nazistas fizeram a primeira queima de livros. Hoje, no lugar, existe um memorial, que eh uma biblioteca subterranea.

Depois fui parar em Kreuzberg na Oranienstrasse onde tomei um cafe no Luzia, outro lugar retro meio parecido com o Berlin, em Sao Paulo (olha soh a irnonia), fiz umas comprinhas (ufa!) na loja oficial do St Pauli (um time de futebol de Hamburgo que virou moda aqui), alem de uns CDs e outras bujigangas.

Berlim: Rage Against the Machine rules!

Nem dormi direito de ansiedade. A pessoa aqui comprou, em Sao Paulo ainda, ingressos para ver RATM em Berlim. Com a Receita Federal em greve eu ateh fiz promessa pro ingresso chegar em tempo. To cumprindo… Bem, fui com umas meninas da Bavaria que conheci no hostel teh o mercado turco de Maybachufer. Eh pequeno, bem cheio de bujigangas e bom pra comprar frutas e queijos.

Depois fui visitar a igreja Kaiser-Wilhelm que ainda exibe os estragos feitos pelos bombardeios da Segunda Guerra. A igreja eh bem sem graca, mas vale ver a cupula destrocada. Eh historia! De lah entrei no KaDeWe, que eu prefiro chamar de “primo pobre” da Harrods. Nao sei, talvez eu esteja num mal momento pra isso, mas nao consigo curtir nenhuma das roupas que eu vejo aqui.

Ai peguei o metro ateh Spandau, onde fica a Zitadelle. Eh um dos mais antigos fortes medievais ainda em peh no mundo e data de 1594. Obviamente, sai da estacao sem ter nocao de onde ficava esse lugar e, por sorte, uma trupe de adolescentes suecos que tambem iam pro show me ajudaram a encontrar.

Cheguei as 2h30 e o show tava marcado pra comecar as 7h. Tava crente que o museu era enorme, que ia conseguir comer e depois ver o show. Vixe! O museu eh todo em alemao e minusculo. Ok, saquei que tinham umas coisas da epoca da Prussia e mais uns apetrechos de uso domestico e militar muito antigos. Mas, po, nem uma palavra em ingles foi de doer. De qq forma o lugar eh bonito, cheio de oficinas de arte e pude ver o palco do RATM sendo montado, alem de toda movimentacao das equipes organizando o show.

Sentei no cafe. E o moco me diz: “desculpe, mas fechamos porque precisamos nos preparar pro show”: Pensei “jah era, vou passar fome” (meu cafe tinha sido um croissant e um suco de laranja no hostel). Sai e fui sentar com os suecos encostada na catraca por onde entrariamos no lugar no show. Detalhe, eles tinham chegado da Suecia naquela tarde e iam voltar pra casa depois do show… Bem, horas depois eu estava faminta. Um dos meninos tinha trazido o que deveria ser um wrap de cole slaw, mas era na verdade massa com maionese. Sim, o troco tinha viajado da Suecia num pote de sorvete Kibon e foi o que me salvou!

As 5h10 abriram as catracas eu corri pelo menos 1km ateh o pit! Yesssssss ganhei a pulseira e peguei meu lugar na grade. Ferrou, deu vontade de ir no banheiro e sede. Bebi a agua que um dos meninos comprou pra mim e simplesmente abstrai o xixi que ficou guardado ateh a 1h da manha. Nao ia sair dali nem por um milhao de euros.

O Anti-Flag entrou as 8h e foi ridiculo. Eu adorava essa banda nos quatro primeiros discos, mas como todo roqueiro que sai do armario fica chaterrimo, o mesmo aconteceu com eles depois que o Justin Sane (vocalista) decidiu que eh gay. Eles conseguiram tocar todas as musicas que eu sempre fiz questao de pular. Mas valeu. Era, afinal, o primeiro dia da visita da George W. Bush a Europa e nada melhor do que um show politicamente engajado.

Mas ai o Anti-Flag disse “thank you” e os rodies comecaram a arrumar o palco do Rage! Cara, serio, quando a estrela comecou a subir e eu vi o lindinho do Zack de la Rocha (que soh nao eh meu marido e pai dos meus filhos porque nao me conhece) comecei a chorar de novo hahahaha. Eles abriram com Testify e o show foi uma paulada soh ateh o fim. Vi ateh o cabelo do peito do Tom Morello, o Timmy eh um gostoso (se me permitem), mas nada supera o Zackarias. Ele pula tanto e eh tao verdadeiro que rolou de tropecar duas vezes e cair de boca no palco.

Ver o entrosamento da banda e ele rindo pro Tom Morello feliz com a vibe da galera foi animal. Quando todo mundo achava que tinha acabado com Killing in the Name, eles voltaram pra mais um bis improvisado com Tire Me e Sleep Now in the Fire War Within a Breath, discutindo o setlist ali na hora. Sensacional!!!!!!

Precisei gritar lindo todas as vezes que o Zackarias ajoelhou na minha frente. E ele canta como se estivesse conversando com a plateia. No final, ele desceu do palco e deu a mao pra nos! Ahhhhhh… Me senti uma adolescente feliz da vida. Foi um dos shows mais energicos, energeticos e brutais que eu jah vi.

Terminei imunda, a galera pogava e a poeira levantava num nivel que todo mundo saiu de lah marrom. Detalhe, o lugar so tem espaco pra 10 mil pessoas. Ou seja, mais intimista impossivel. E ainda teve um open bar na hora da saida.

Ok, comi uma batata assada ali mesmo no Zitadelle e peguei o metro de volta pro hostel cantando “People of the Sun” e pensando que eu devia virar “stalker” e ir atras do Zack (que jah eh paranoico e toma remedio, segundo rezam os boatos de bastidor). Sim, finalmente fui no banheiro porque a coitadinha da bexiga foi minha amiga, mas nao perdoou. O coturno tah lah, sujo de poeira. O ingresso volta comigo pra minha colecao. E o coracao bateu forte a noite toda.

Berlim: as memorias historicas e militares

Ok, pra variar eu me perco. Me perco mto. Primeiro tento entender pra qual estacao de metro eu tenho que ir. Depois, quando saio dela, fico tentando descobrir pra que lado eu vou jah que a sinalizacao aqui nao eh necessariamente a mais logica.

Serio, to impressionada como ninguem aqui vive estressado. Pelo menos eu ateh agora nao peguei um metro cheio, nem com aquelas pessoas desesperadas, como rola em Londres ou NY.

Bem, andei que nem doente de novo. Passei pelo Palacio de Bellevue, onde vive a presidente, desci ateh a Victoria Column (aquele monumento com o anjo) e andei ateh o Portao de Brandenburgo, que eh um dos locais mais historicos de Berlim. Eu amo o tanto que esta cidade eh cercada de parques. De lah, fiquei meia hora na fila pra entrar no Reichstag, que eh o Parlamento alemao. Dentro nem tem nada demais, mas eu curto pisar nos mesmos lugares que as figuras historicas. A Praca da Republica, obvio, coloca Brasilia no chinelo e eh mto mais moderna.

Engracado, tem umas coisas mto bacanas aqui. Moveis incriveis, quadros sensacionais e tdo o que eu gosto, conforme dita a tradicao, eh caro pra chuchu. Mas as roupas e os acessorios sao bem simples. As coisas “descoladas” nao me fazem sentir tremores, entao eu nem to tao avida por comprar coisas. Ateh porque pra pagar tres vezes mais por algo que eu posso encontrar na Vila Madalena ou na Galeria Ouro Fino nao dah. Prefiro pagar em real mesmo e em vezes. Isso, tirando as coisas punks que eu soh acho aqui, neh? Claro!

Minhas emocoes afloraram assim que eu desemboquei no Checkpoint Charlie, que costumava ser a fronteira entre Berlim ocidental e oriental. O museu eh incrivel, traz fotos e aparatos reais das pessoas que tentavam escapar do lado oriental, os protestos todos que rolaram, as visitas presidenciais e as discussoes politicas. Eh de arrepiar. Foi mto, mas mto animal mesmo.

Andando tb fui ao Topography of Terror, uma exposicao, tambem de fotos reais, de todo o regime de Hitler, com cartas enviadas pela Gestapo a familias de pessoas que foram mortas, alegando medidas de “defesa pelo bem do povo alemao”, fotos de presos politicos que tambem perderam suas vidas, alem de imagens fortes de execucoes e humiliacoes publicas. O mais legal eh que a exposicao fica no lugar onde havia os predios da SS e da Gestapo. Muiiiiito legal!! E ainda existe ali um pedaco do muro em peh. Passei o tempo todo extasiada junto com um casal de Barcelona, que acompanhou a visita comigo discutindo os ocorridos da Segunda Guerra.

O louco eh que a cidade eh tao diferente e tranquila que eh mto surreal imaginar que todas essas coisas realmente rolaram. Eles precisam, sim, manter essa memoria viva porque as novas geracoes simplesmente nao devem conseguir ter muita conexao com esse momento da Alemanha.

Terminei o dia “almojantando” na Potsdamer Platz que era o lugar mais perto dali. Comi Thai noodles, mas culinaria nao eh algo que os alemaes facam mto bem.

Entre outras coisas que venho percebendo eh, alem da simpatia (eles sao todos mto gente boa), que a maioria compra e enrola fumo no lugar de aderir aos cigarros de marca e que, de fato, o jeito de ser eh mto low profile. Talvez por isso moda nao seja lah um ponto mto forte, apesar de haver diversos estilistas de renome internacional.