Berlim: relax…. hum, acho que nao

Apesar da chuva me preparei toda pra ir a Charlottenburg, a versao alema do Palacio de Versalhes. Eh bem bonito, mas obviamente Versalhes eh insuperavel. De novo, uma questao de logica. Voce chega no museu e deixa a bolsa em um guarda-volumes, mas a garrafa d’agua em outro. Claro que eu fui embora e esqueci a agua lah. O audio guide vem com instrucao. Ao inves do numero correspondente ficar ao lado de cada obra que sera explicada, aqui voce precisa carregar um papel e ficar procurando o que apertar no guia.

Achei que fosse passar o dia todo ali, mas na verdade depois de quatro horas eu jah tinha visto tudo. Que delicia poder ficar parada pensando o que fazer sem qualquer tipo de preocupacao. Fisicamente acho que esta eh uma das viagens mais cansativas se levar em conta que vim ficar poucos dias. Mas mentalmente nunca foi tao sensacional.

Decidi voltar pra Kreuzberg. No metro um punk tira da mochila um cranio (espero eu que seja de plastico) e fica o caminho todo ateh a estacao de Kottbusser Tor lustrando a caveira com um paninho preto. Bastante bizarro.

Fiz uma horinha e depois fui ao SO 36, uma das casas de show mais tradicionais de Berlim. O lugar estava lotado de punks e moderninhos jah que a atracao da noite foi o EA 80, uma banda alema “das antigas” que lembra um pouco Joy Division com Fugazi e New Model Army. Nao sei definir exatamente…

O show foi incrivel e conheci a Bettina, uma taxista de 40 anos com metade do cabelo pink e, que eu contei, nove piercings. Paramos pra tomar um cafe depois do show e nunca isso foi tao esclarecedor na minha vida. Bettina eh uma pessoa de conviccoes fortes. Eh sociologa, super inteligente, mas prefiriu aderir a “contra-cultura”, como ela mesma define, por uma questao de principios.

“Como posso trabalhar de forma social numa Alemanha que, depois da reunificacao, cortou metade da verba pra trabalhos sociais porque a parte ocidental nao precisa mais parecer bacana e se sobrepor ao lado oriental? Aqui soh existiu investimento enquanto existiu a necessidade de propaganda politica. Mas tambem nao poderia ter outro tipo de trabalho que me desrespeitasse como pessoa”, ela disse.

Porem, aos 40 anos (recem-completados), Bettina comeca a pensar no futuro. “Eu nao tenho a menor vontade, nunca tive, de chegar ao topo de nada. Mas viver o tempo inteiro “at the bottom” tah comecando a encher o saco. Eh muito dificil e realmente preciso tomar algumas decisoes na minha vida”.

Ou seja, nao importa o lugar do mundo, a tribo, nem as conviccoes. Uma hora todo mundo precisa crescer (se eh que este eh o termo certo). Mesmo num pais como a Alemanha onde o individualismo eh extremamente respeitado e grande parte das pessoas (de todas as idades) tem o cabelo, a tatutagem, o piercing e o rasta que quiser, Bettina paga o preco de ter aberto mao do “sistema”.

A velhice ta batendo na porta e com ela uma seria de preocupacoes que Bettina se deu ao luxo de nao precisar ter ateh os 40. Nao, ela nao vai pintar o cabelo de uma cor soh e colocar “terninho”. Mas eh bem provavel que a gente ouca falar de Bettina em busca de um emprego mais tradicional, marido, filhos e todas essas coisas pseudo-burguesas que a sociedade tanto joga na cara.

Bem, do cafe fomos pro Kato, uma balada punk/gotica onde das pessoas se parecem com o vocalista do Prodigy, o Robert Smith, do The Cure, ou o Wattie, do Exploited. Me senti nos aureos tempos do Madame Sata, em Sao Paulo, dancando Sisters of Mercy e Dead Kennedys do lado de um cara com uma saia de couro ateh o tornozelo, metade da cabeca raspada e pintada de azul.

Varias pessoas que estavam no show foram para la e acabei conhecendo uma porcao de outros amigos da Bettina. Fiquei sabendo de varios outros enderecos interessantissimos pra visitar em Berlim e lojas onde eu corro serios riscos de fazer estragos financeiros. Foi um dia longo e divertidissimo. E meus pes estao realmente comecando a fazer contagem regressiva…

2 Comments

  1. Posted June 15, 2008 at 8:20 am | Permalink

    as descrições da viagens tão bem locas….e ai não consegue colocar umas fotos tambem…mas caso não dê só as descrições já tão valendo bem a pena…
    saudações pra ti

  2. DM
    Posted June 26, 2008 at 1:50 pm | Permalink

    Continuo viajando com você ….Essa troca de experiências culturais é o máximo, belas descrições Thiane ! Dá vontade de embarcar para Berlim, amanhã ….

    Beijos querido, esse tipo de “bagagem cultural”, a gente não esqueci nunca !!!!

    Faz um escalda pés, e prossegue contando prá
    gente!!!

    Beijos

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