Falta orgulho de ser Brasil

Nós não temos que ter orgulho de ser brasileiros. Precisamos ter orgulho de ser Brasil. O acidente da TAM nos fez culpar o governo por inúmeros erros que todos os dias são cometidos neste País, em todas as esferas. Mas a gente se esquece de nos incluir entre os que erram e tentamos nos esquivar de algumas responsabilidades. Simplesmente não consegui passar pelo blog estes dias. Via as chamas da aeronave da janela do meu escritório e acompanhava as primeiras notícias pela TV, tentando falar com meus colegas presos no aeroporto. Vivi nas proximidades de Congonhas por 31 anos. Faz só quatro meses que mudei dali. Meus pais passam em frente à TAM Express todos os dias. Foi um aperto no coração até saber que meu pai chegou bem em casa. Foi tudo muito horrível e deprimente. Agora a vida continua, mas com muito menos confiança e muito mais medo. Mas independentemente do problema ser da pista, falha do piloto ou na aeronave, há alguns fatores sobre os quais devemos refletir. Congonhas tem o tráfego que tem por nossa própria demanda. Nós preferimos voar por Congonhas, por ser mais prático. Da mesma forma que é muito melhor descer no Santos Dumont e não no Galeão. Por conta da nossa própria exigência, da demanda de mercado, as companhias aéreas forçaram a barra junto aos órgãos reguladores para liberar esse número insano de vôos, transformando Congonhas no maior aeroporto da América Latina. Portanto nós, passageiros, temos nossa parcela de responsabilidade. Nós reclamamos quando a pista ficou fechada pra reforma. Queremos viver coisas de primeiro mundo. Andar de avião pra cima e pra baixo a custos módicos e ainda poder descer em Congonhas (ponte área da Gol, por exemplo) é um desses privilégios dos quais não queremos abrir mão. Convenhamos que ao comprar uma passagem de 60 dólares ou 60 euros você jamais descerá em um aeroporto central na Europa ou nos EUA, porque essa é uma das condições para custar mais barato. Queremos ter um tráfego aéreo como o da Europa, mas esquecemos que pelo menos metade dos europeus viaja de trem. Alguém aqui já viu alguma ação em prol da construção de ferrovias? Aí eu digo que isso mais uma vez reflete a mentalidade do brasileiro. E por isso reafirmo que o problema não é ser brasileiro, mas enxergar o Brasil como pátria. A gente só vê o nosso próprio umbigo. Queremos Congonhas e por isso não exigimos melhorias em Guarulhos. Hoje todo mundo esbraveja o fechamento do aeroporto. Há pelo menos 10 anos sabe-se do perigo que ele representa. Ficamos presos no congestionamento, mas não exigimos melhores transportes públicos. Preguiça? A gente faz do nosso próprio trânsito um dos mais violentos do mundo, às vezes só pelo prazer de chegar ao próximo semáforo antes do outro. Quando fechamos alguém na rua, pioramos as vias onde nossos filhos um dia vão dirigir. Quando ultrapassamos pelo acostamento, colocamos em risco as estradas por onde nossos amigos viajam. E aí? A gente larga o avião e vai a pé? Votamos nos mesmos políticos porque não nos interessamos em realmente conhecê-los para um dia mudar a balbúrdia que é nosso Congresso. Queremos morar fora. Gostaríamos de ter nascido em outro lugar mais bacana. Aí deixamos de amar nossa própria terra. Não exigimos nossos direitos, porque também não queremos cumprir com deveres básicos. Fica mais fácil culpar o governo, passar por cima do desrespeito do outro (afinal a gente também dá o nosso jeitinho) e assim o Brasil segue sem infra-estrutura e capacitação suficiente pra crescer. A gente esquece que governo é feito de brasileiros. Povo é feito de brasileiros. Nós somos brasileiros. O Brasil somos nós! Sabe, talvez eu precise mudar minha atitude aqui mesmo. Ensinar o que eu tiver a chance de ensinar — a quem puder ensinar –, doar menos brinquedos ou roupas velhas e fazer mais trabalhos voluntários, ser mais sustentável e cidadã. Cobrar respeito das pessoas, respeitar mais. Conscientizar amigos e familiares a serem também mais responsáveis. Policiar-me em pequenas coisas, mudar hábitos sutis, mas que no fim do dia farão meu “minúsculo mundo” melhor. Imaginem vocês se todos os nossos “minúsculos mundos” fossem melhores.

8 Comments

  1. Franco de Paula
    Posted July 20, 2007 at 12:10 am | Permalink

    Boa noite,

    Lendo suas notas sobre o Google devo admitir que comecei a achar que você fosse maluca – talvez ainda ache um pouco -, toda este comentário foi maravilhoso e deveria ser lido por cada um dos nossos compatriotas.

    Parabéns,

  2. Thiane
    Posted July 20, 2007 at 3:57 am | Permalink

    Maluca, eu? Só um pouquinho :>)
    Obrigada pelo elogio. Beijos

  3. DM
    Posted July 20, 2007 at 12:43 pm | Permalink

    Thiane, simplesmente sem comentários ! Maravilhosa sua concepção de cidadania ! Também moro em São Paulo, e confesso, eu e meu marido utilzamos muito o aeroporto de Congonhas, pela praticidade… Todos nós enfim temos nossa parcela de culpa …

    Excelente “post”, uma verdadeira lição de cidadania e consciência de nossa parcela de responsabilidade !

    Beijos

  4. Anonymous
    Posted July 21, 2007 at 1:15 am | Permalink

    Oi Thi, só pra completar. A falta de orgulho vem de tudo isso que você já bem disse. Mas infelizmente a gente só lembra da falta de orgulho quando novamente a tragédia bate à nossa porta. Congonhas é um problema, mas não é o Brasil, entende o que quero dizer? A tragédia brasileira é termos seca bem ao lado da maior bacia hidrográfica do planeta Terra (que ironia absurda). A tragédia é o coronelismo que perdura interior adentro, como cinco séculos atrás. A tragédia é a guerra no campo. A tragédia são os 120 milhões de irmãos brasileiros pobres, deste total 40 milhões são miseráveis. Miseráveis!!! Não dá pra ficar bom pra mim, pra você, pros leitores deste blog sem que a massa abaixo da gente esteja melhor. Existem aqui 40 milhões de pessoas que não sabem “se” e “como” conseguirão a próxima refeição. Você consegue imaginar o que é isso? Essa é a tragédia, que aliás saiu numa pesquisa socioeconômica no mesmo Dia do PCC. Deveria ser a manchete de capa de TODOS os jornais. Não foi. Não dá pra ficar bom pra nós. Já está bom pra nós, que comemos, pagamos nossas contas e debatemos pela internet.
    É histórico: enquanto existir um castelo (nós) rodeado de uma plebe do lado de fora, não há nação que resista. Não vai melhorar pra mim, e nem quero. Um país inteiro precisa do Brasil antes de mim.
    O meu texto iria bem longe. Mas, pre encurtar, na minha opinião, é o seguinte. O hoje Brasil é insolúvel. Não há qualquer medida que transforme o Brasil numa sociedade civilizada num prazo de 4 ou 8 anos. Nem dez. O Brasil só vai realmente me encher de orgulho no dia em que toda esta sociedade for despreendida o suficiente para não querer nada agora (pois agora é irreversível) e para entender que qualquer medida, tomada exatamente agora, tomada exatamente neste exato instante, só terá reflexos e só servirá para a sociedade brasileira que existir daqui a 30 ou 40 anos. E este dia terá obrigatoriamente de ser acompanhado de um governante com culhões o suficiente para dizer: “ei sociedade brasileira, tudo o que vou fazer agora não é para nós, é para a sociedade brasileira que existirá em 2050″. É como a Coréia do Sul fez, após ser esmagada pela 2Guerra Mundial e pela Guerra das Coréias. Ou seja, ou país cuja sociedade abriu mão de suas próprias melhorias urgentes e imediatas em nome das gerações seguintes.

    Grande beijo
    Gui Sierra

  5. rafael
    Posted July 21, 2007 at 3:32 am | Permalink

    Thiane

    Seu texto foi um bálsamo para mim.

    Acabei de escrever desabafando sobre o que tenho visto, lido e ouvido com relação ao acidente, e agora encontro aqui um texto realmente coerente sobre a situação.

    Certamente eu não poderia esperar algo diferende vindo de você.

    bjus

  6. AP
    Posted July 21, 2007 at 10:00 pm | Permalink

    Thiane, palmas pra você! Disse tudo. Cabe a nós mesmos mudarmos de atitude e fazer nosso país mudar… eu sempre digo que tenho responsabilidade dupla. Me educar e educar meu filho. Está na hora de a gente se envergonhar de só poder sentir orgulho do país quando o assunto é esporte…

    Eu morei perto do aeroporto quase toos os sete anos que morei em São Paulo… Subi e desci muitas, muitas, muitas vezes lá em Congonhas, com e sem meu filhote, por causa da família aqui no Rio… Me senti tão mal em me lembrar disso… Me sinto tão triste por toda essa tragédia, é como se conhecesse alguém naquela lista…

    Beijos.

  7. Carla Meneghini
    Posted July 23, 2007 at 7:33 pm | Permalink

    Amiga, exceto por uma minoria mais informada e que sofre (nós), a maioria do povo brasileiro (sem preconceito de classe social) é muito egoísta, só pensa no seu próprio nariz, por isso esse país nunca vai sair dessa merda (perdoe o meu francês). Enquanto não existir um senso de comunidade, enquanto não se pensar também nos outros, esse lugar não vai mudar.
    O problema do Brasil é o brasileiro.
    bjs,
    Carla

  8. Sir DoRego
    Posted July 25, 2007 at 4:03 pm | Permalink

    é foda…só o que posso dizer além da incredulidade, mas isso passa com o tempo passa o que não passa é a decepção com muitos membros desse país que se acha nação…

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