Sbaile em “Como sobreviver no primeiro mundo: a visita de Ling”.
Cheguei a Florida. Loiras. Silicone. Cubanos. Velhos. Shoppings. Basicamente isso. Entro no messenger. Ling me chama pra conversar. Nunca vi na vida. Conheci num fórum de viajantes. É de Singapura.
- Sbaile, você está em West Palm?
- Sim.
- Chego em Miami amanhã. Vai me buscar no aeroporto?
- Como?
- É! Estou em Montana. Perto do Canadá. Minha primeira volta ao mundo!
- Uhuuu, yeah, yeah. E aonde vai ficar em Miami?
- Não vou ficar lá, vou ficar na sua casa!
- Que?
- Não sou bem-vinda?
- Não… Digo… Ling, eu não tenho casa!
- Sbaile, você sempre viaja, sabe como os hotéis são caros. Eu fico em qualquer lugar, pode me colocar pra dormir no chão, no sofá, eu não me importo!
- Que horas você chega a Miami?
- Cinco e meia da manhã.
- Puta que pariu! Tá bom, tá bom. Manda uma foto, não lembro mais do seu rosto.
- Sou de Singapura, devo ser a única asiática lá.
- Deve ser a única pessoa lá às cinco e meia da manhã!
- Vôos noturnos, são mais baratos.
- Tá. Combinado. Apareço lá.
Acordo às três da manhã e dirijo uma hora e quinze minutos até o aeroporto.
- Sbaile, minha querida! Obrigada por vir até aqui. Nem sei como agradecer.
- Tá tranqüilo, Ling. Entra aí no carro.
- Estou tão feliz por finalmente te conhecer!
- Tem piscina em casa. Gosta de nadar?
- Adoro!
- Que bom. É tudo o que vai fazer enquanto estiver comigo.
- Não tem mais nada pra fazer?
- Não. Esta cidade é cheia de velhos, Ling. Sei lá, de repente tem uns clubes de xadrez da terceira idade, uns grupos de ajuda para generais aposentados após perderem membros no Vietnã. Só sei que todo entretenimento nessa droga é voltado a velhotes.
- E por que você veio pra cá?
- Eu estudo aqui, Ling. A pergunta é: por que você veio pra cá?
- Pra te ver, Sbaile!
- Ah, não precisava.
Nunca essa frase saiu da minha boca num tom tão verdadeiro. Meu nível de estresse estava tão alto que resolvi mudar de lado com ela. Agora, ela que me agüentasse.
- Ling… Deixa eu te perguntar uma coisa. Qual é o sentido da vida?
- Não faço a mínima idéia.
- Como não?
- Sei lá. Estamos todos aqui, deve ter alguma razão. Mas como eu vou saber? Você deveria perguntar a um filósofo, sei lá.
- Não, Ling. Todos os bons filósofos morreram. Perdi minhas chances. Quero saber qual é o sentido da sua vida.
- E por que quer saber isso?
- Curiosidade.
- Eu estou na minha primeira volta ao mundo. Quero viajar. Sempre quis. Acho que o ser humano é um animal fascinante, por isso gosto de conhecer pessoas e me relacionar com elas em contextos diferentes, lugares diferentes. Estar aqui com uma brasileira na Flórida é diferente de estar com você na Índia. O ambiente muda, o cenário muda, as pessoas mudam.
- O sentido da sua vida é viajar, então?
- É. Acho que sim.
- E essa é sua contribuição para a humanidade?
- Melhor que ser bancária.
- É. Faz algum sentido. E como você arruma grana pra viajar?
- Me casei com um milionário.
- De Singapura?
- Não, Suécia.
- E por que ele não veio com você?
- Tem que trabalhar.
- Para pagar a sua viagem, suponho.
- Aliás, como você faz pra pagar a faculdade?
- Não me casei.
- Como assim?
- Se tivesse me casado, teria que dividir água, luz, telefone, ração do gato, aluguel. Não sobraria nada pra faculdade.
- Não se você tivesse se casado com um rico.
- Nunca conheci um homem rico, eu acho. Nem um pobre que quisesse se casar comigo. Resolvi arrumar um emprego.
- Faz bem. Às vezes o preço da dependência financeira é alto demais.
- Seu rico é muito feio?
- Não, mas às vezes eu quero sair com amigos e ele me quer lá, fazendo chá pra ele.
- Puta merda, Ling. Fazer chá? É um preço bem razoável, você não acha?
- Queria mais liberdade, só isso.
- Casou pelo dinheiro?
- Não. Sempre tive dinheiro. Me casei por amor. Mas sabe, Sbaile… Abrir o vidro do seu carro sob o sol da Flórida e colocar a cabeça pra fora como se eu fosse um cachorrinho de madame, poder gritar pela janela aqui, conhecer pessoas novas… Isso não tem preço.
- Tem sim, Ling. Se você trabalhasse, saberia quanto as passagens estão custando.
- Você me parece muito preocupada com as coisas.
- Sou judia e financeiramente fodida.
- E isso explica o quê?
- Que fui criada para me sentir culpada cada vez que gasto dinheiro. E para odiar os homens, mas esse é um outro assunto.
- Você odeia os homens?
- Não, sou livre de preconceitos. Odeio todos por igual, ambos os sexos.
- Então por que você não coloca a cabeça pra fora do carro e grita: “Malditos! Morram, filhos da puta!”
- Porque não estou bêbada.
Ela coloca a cabeça pra fora da janela e grita alguma coisa em chinês que termina em inglês: “…you bloody mother fuckers!”
Alguém buzina.
- Shut up, bitches!
- Fuck off and die, bastard!
- Tá vendo, Sbaile? Esse é o sentido da vida. O sentido é que nada faz qualquer sentido e, se nada faz sentido mesmo, a gente faz o que quiser!
- Sabe o que me incomoda na Flórida?
- Que nenhuma banda boa vem pra cá?
- Isso também. Mas tem uma coisa que me deixa mais puta.
- Fala logo!
- O planejamento físico. É um complô, Ling!
- Sbaile… Você realmente se preocupa com o sentido da vida e com o planejamento físico da Flórida? Meu Deus!
- Veja só: qualquer bairro residencial fica a pelo menos dez minutos de carro do bar mais próximo, o que significa quase uma hora andando. Todos vão aos bares de carro.
- Todos vão a todos os lugares de carro. Você vai falar de aquecimento global? Guerra pelo petróleo?
– A questão é: eu não posso dirigir bêbada! Como alguém espera que eu vá e volte de um bar dirigindo se não posso dirigir quando bebo? Vê? É impossível ficar bêbado na Flórida!
- E se alguém for dirigindo pra você?
- Aí essa pessoa não vai beber e eu não confio em pessoas que não bebem.
- E você está preocupada com isso?
- Tem me atormentado os dias.
- Espera aí… Você não está legalmente autorizada a beber. Você tem vinte anos.
- Isso faz de mim uma criminosa. Mas já me acostumei com a idéia de vida do crime nos Estados Unidos. Tudo é crime nessa merda.
- Você tem cometido vários?
- Alguns. Tipo esse lance da idade: falsidade ideológica. Dirigir bêbada: pelo menos três vezes por semana. E por último e mais bizarro: trabalho ilegal.
- Você está ilegal aqui?
- Não. Estou com visto de estudante.
- E por que trabalha ilegalmente, então?
- Aí entra a parte bizarra: trabalhar é crime neste país! Eles estão me negando o direito ao trabalho, Ling! Vê se pode! Quando trabalhar é considerado um crime, o melhor piloto da Fórmula 1 é negro
e o rapper mais famoso do mundo é branco, você percebe que esse mundo tá indo mesmo pro saco?
- Que merda!
- Quando eu for presa, sabe o que vão dizer? Mulher, latino-americana, com sobrenome libanês, judia… Claro que é criminosa! Olhando pra mim, você vê o sub do sub.
- Ainda sim, é melhor que ser bancária.
- Existe algo pior que ser bancária?
- Dentista.
- Malditos dentistas.
- Quer um cigarro, Ling?
- Não fumo. Obrigada.
- Bebe?
- Sim, sim.
- Vamos no Lewis’, então.
- São seis da manhã, Sbaile!
- Fica a quarenta minutos daqui. Serão quase sete quando chegarmos lá.
- Tá bom, então.

Jornalista, trabalhando com Relações Públicas. Apaixonada por música e pela vida.





12 Comments
Simplesmente adorei ! Miami de fato, é essa bosta toda !!!!
Parabéns pelo texto Thiane! Genial!
lembrei do Bukowski…
bj
Gui
Vale dizer que quem escreveu foi a própria Sbaile, mas não podia deixar de colocar aqui. É hilária demais. Beijos
Estou me sentindo um pouco famosa agora…
Saudade!!!
Mix de Bukowski com os diálogos hilários dos filmes de Walter Matthau e Jack Lemon, temperado por um humor ácido que esconde (um pouco) um monte de críticas com as quais concordo plenamente.
-Mr Eddy
Que história louc, mas se acabou num bar as sete da manhã, deve ter sido ótimo viver isso…. bem meu estilo.,..
que viagem esta estória….voce foi longe nesta…”faltou” somente uma trilha sonora para acompanhar esta viagem…o que vc indica…
Que legal de ler…:D
Aproveita bem o fim de semana.. beijos!
Ahahaha! Adorei! Beijos Thiane e boa semana!
Voltei pra te dizer que te indiquei a um prêmio lá no blog!;) Espero que gostes.. Uma ótima semana.. beijos!
Então… perdoe essa vaca que anda meio de cabeça virada… Juraaaaava que tinha lido um comentário seu sobre o prêmio no Van Filosofia… Como se vc houvesse pesquisado e descoberto do que se tratava… Desculpe! Um beijo!
Que isso. Fica tranquila AP. Nós todos andamos meio zuretas ultimamente. Melica, valeu pelo prêmio! beijocas