
Republicando texto feito originalmente em 2000 para a agência Reuters. (foto: antigo cartaz de shows em Israel)
Em qualquer lugar do mundo, punk rock é feito por gente a fim de usar a música como protesto político ou por bandas que simplesmente curtem a energia desse tipo de som. Em Israel isso não seria diferente. Mas judeus que apóiam os palestinos surpreendem quem acompanha a violência no Oriente Médio só pelo noticiário e acha que tudo se resume ao ódio entre esses dois povos. O Dir Yassin é uma banda que nasceu em 1997 para “trazer de volta à consciência das pessoas os sangrentos atos do Sionismo e da história de Israel que durante anos foram sublimados”, segundo diz o vocalista Federico Gomez no site do grupo. Em 1999, a banda fez um show em Telaviv para arrecadar dinheiro para uma família palestina que vive próxima aos territórios ocupados de Hebron e teve a sua casa demolida três vezes pelo Exército israelense. Ainda que as músicas não falem de política, os ideais de quem toca punk em Haifa, Telaviv e Jerusalém visam basicamente a uma nação em paz. E, se o protesto passa longe das letras, o punk é uma fuga para aqueles que nunca sabem quando e onde a próxima bomba vai explodir. “Em Israel, cada um tem uma opinião política. Mas ainda que as pessoas esperem que o rock israelense seja puramente político, a grande verdade é que fazer música aqui se tornou uma forma de escapar da realidade e se juntar a quem não tem vontade de comprar essa briga (entre judeus e palestinos)”, disse Yuda em entrevista por email. Yuda tem 22 anos e comanda o grupo DxPxAx e uma rádio virtual. “A maioria dos “punkers” apóia um Estado palestino e o processo de paz. Mas deixei de acreditar em utopia”, contou ele. “O punk em Israel é uma moda que atinge mais adolescentes. É legal que exista uma cena alternativa por aqui, mas isso nunca vai mudar a situação. Perdeu-se o rumo do processo de paz há muito tempo”, disse. Ishay Berger tem 23 anos e é líder da principal banda punk israelense, a Useless ID. Ele também diz que “a cena punk em Israel é como qualquer outra e tentamos deixar a política de fora das nossas músicas porque a vida já é bem chata com essa violência toda”. “Somos politizados. Mas uma hora todo mundo cresce e desencana do punk. Por isso, é legal usar o punk para se divertir e não falar só de coisas ruins”, disse ele, também por email. Os shows do Useless ID costumam reunir 300 pessoas e a banda já fez turnês na Europa e nos Estados Unidos. Eles têm uma música gravada na coletânea “Short Music for Short People”, da Fat Wreck, e lançaram no mês passado o CD “Bad Story Happy Ending”, pela Kung Fu Records. Mas, mesmo sem ter nada contra os palestinos, boa parte dos jovens israelenses mantém suas opiniões em segredo. “Meu pai é um extremista de direita e racista. Ele tem um site chamado “Guerras e Gangues”, onde ele publica os ensaios dele sobre as suas participações em grupos fundamentalistas. Jamais poderia esperar que ele aceitasse as minhas idéias”, disse Yuda. Apesar das neuroses familiares e da violência, os israelenses ouvem também Nechei Naatza, Negative Impact, Crispy Brain, USF e Man Alive. A Shevet Tzofit, de Haifa, é uma ONG que organiza shows todos os meses, e em Telaviv tem um lugar chamado The Patifone onde acontecem festivais de música alternativa. Por que os palestinos não têm bandas? Segundo Yuda, “porque ter uma banda é um “luxo” que os palestinos não podem bancar. Eles não têm dinheiro para comprar instrumentos e vivem sob um regime opressivo. Não sei como eles lidam com a liberdade de expressão, mas não acho que qualquer palestino tenha coragem de montar uma banda para falar o que vier à cabeça”.
Jornalista, trabalhando com Relações Públicas. Apaixonada por música e pela vida.





